sexta-feira, 25 de julho de 2014

É um homem, senhor.

Se aquela mulher bater no meu carro, eu mato ela!

Disse o fulano nervoso pegando bolo.

Duas atendentes, eu e minha filha.

Olhei para o carro que estava manobrando e passando perto do carro daquele senhor.

Não era mulher. Era homem. Era, nitidamente, um homem.

Não é uma mulher. É um homem, senhor. - eu disse.

Hã?- ele respondeu.

Um homem que estava dirigindo o carro e não uma mulher. - tentei de novo.

Ah! - ele disse

A atendente do bolo resmunga alto "cada coisa que a gente tem que aguentar, né?"

A outra me dá uma piscada e um sorriso.

Me sinto feliz por não ter me calado.

Para que não continue essa velharia de achar as coisas que não são. Para que os velhos se renovem também. Todos esses velhos conceitos que são inocentes e pequenos quando se está do lado de quem acusa. Todos esses ingênuos momentos que nos deixam menores, que nos diminuem, malditos!, silêncio, respeito, não assobie, não difame, renove. É um turbilhão de raiva em mim...

Que exagero reclamar disso - dizem com frequência.
É uma bobagem, certo?
Uma coisa pequena. uma coisica de nada que me faz mais presa em casa, menos capaz de dirigir, menos potente como ser capaz de tomar uma decisão de ir ou ficar. Cercada com medo de bater o carro do outro, do outro que me olha, me assedia, me vê como incapaz de defesa. Que me acusa na figura daquele homem que, quase batendo no carro do outro, vira uma mulher. Qualquer mulher. Então, por que não eu? Foi comigo que ele falou e...é um turbilhão de raiva em mim...

Não é pequeno.

Nessas pequenas coisas mora uma busca pela liberdade de dirigir.

Nessas pequenas coisas mora uma necessidade masculina de que fiquemos em casa, quietas, sem pegar estrada. Com medo de bater ou arranhar ou ser arranhada ou furar pneu ou encontrar com senhores que matam mulheres imaginárias no estacionamento da casa de bolos.

(aos meus homens queridos, perdão pela fúria. estou certa de que sou compreendida por vocês)