sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Tremelique

E ela acabou pensando na sua morte. Seu caixão. Sua roupa. Seus dedos. Um terço? Não seria adequado um terço. Um terço. Foi estranho pensar na ausência dela mesma ali naquele endereço onde estaria seu corpo. Foi estranho pensar ausência com pernas olhos mãos coração boca e ouvidos. Estranho pensar naquilo tudo imóvel. Parado. Paradinha ela num lugar que não lhe diria mais respeito. O vento. O frio. O calor. A mosca a lhe incomodar o nariz. As flores sem rinite. Os botões sem incomodar as costas. Não foi um pensamento bom esse. Resolveu aumentar o quadro. Os outros. Aquele que foi. Aquele que não foi. Aquele que chorou pouco. Aquele que teve que ser medicado. Aquela que ficou o tempo todo. A outra que não aguentou. Aquele que espirrou. Aquela que tomava guaraná zero. Todas aquelas pequenas coisas sendo feitas ao redor dela. Aquela morta. Era estranho pensar nisso, mas era impossível não estar no centro do pensamento a própria face fria. Que coisa chata que deve ser morrer. E que demore. Ela levantou num solavanco. Era tarde e o pensamento da morte fez com que ela precisasse de um vinho branco. O gole foi longo. Um choro. Outro gole. Água. Uma entra outra sai. A ideia do corpo seco voltou a atormentar. O vinho seco corpo imóvel vida um gole longo que acaba. Voltou ao cenário. Aumentou ainda mais o quadro. Lá fora, na rua do velório, um cachorro passou isento ingênuo de seu inevitável fim. Um gole mais curto o do cachorro mas ele passeia como se não fosse. Ficou a inveja do cachorro amarelo que passeava na rua do velório imaginado. Uma árvore que balança. Um dois três carros. O jornal da noite grita num bar de esquina. Ela volta para a imagem dela deitada. Seria bom levantar e tomar um pingado. Ela fica feliz por poder tomar um pingado, mas deixa pra daqui a pouco. Ainda tenho tempo, pensa no travesseiro. O velório volta. Ela aumenta mais o quadro. De cima tudo sempre me pareceu um tecido estampado, ela pensa. É pra lá que leva seu velório imaginado. Olhando lá de cima nem viu o corpo nem o terço nem os botões nem o cachorro nem a fumaça do pingado. O tecido estampado cobre tudo. Eu disse, Suzana, que a vida não tem sentido! Pensou. Volta quietinha pro travesseiro. Vez em quando volta a morta. Ela morta volta. Ela espanta num tremelique. Amanhã e tremelique são coisas de gente viva.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sr. O.

Sr. O., gostaria de dizer ao senhor que seria bom para o senhor que fôssemos todas explicáveis resumíveis conceituáveis previsíveis. Quem te dera, Sr.O, que o senhor tivesse razão e todas nós no fundo nos odiássemos e falássemos apenas sobre os senhores, detentores de todas essas cadeiras giratórias. Esse mundo, Sr. O, não pode ser habitado em paz por nós. Escolho o meu lado, afinal. Aqui o chão é terra e não tem parede pintada. Bem que o senhor queria que fôssemos todas domesticadas aromatizadas pasteurizadas depiladas vestidas conforme. Não somos, Sr. O. A vida nasce entre pelos. Reconheça, Sr.O, que estamos em lados opostos da trincheira. Quem te dera se tivéssemos sido todas anestesiadas cirurgicamente lavadas cortadas precisadas de doutor e de clínica de doutor e de horário de doutor disponível. Mas, Sr. O., nós experimentamos ser dona do nosso tempo nosso templo nossa vertigem aborígene. E sabemos não em nossas mentes mas em nossas vísceras que somos donas do mundo se assim quisermos. Não esse nosso, Sr. O. Esse é do senhor. O senhor venceu. Fique com ele, aliás. Ignore que sua mãe é triste mesmo que insista em colocar foto dela com papai sorrindo felicidade entredentes. Ignore e tome esse mundo para o senhor. Ele não pode ser de nós dois. Fique com ele. Não o quero. Quero aquele outro que está ali dobrando a esquina dessa rua que não acaba nunca mas eu não vou parar de andar. E mesmo quem não anda, Sr. O, mesmo aquela que ficou parada sente naquele fundinho de canto de entranha de alma de muco de música ancestral que tem alguma coisa que precisa virar no avesso pra gente poder existir aqui. Nós não somos adaptáveis. Nós estamos tristes, Sr. O, nesse mundo cheio de geometria sem círculo de palavra sem eco de coisa caída no chão coisa morta que alguém atropelou e levou para passear com coleira. Nós estamos escolhendo, Sr. O. Escolho experimentar um raciocínio com lógicas de frio na espinha e suspiro de vento quente no estômago e choro que vem quietinho não porque sou mulher de Vinícius e sou linda chorando baixinho mas porque o desespero está escondido e vem gritar de noite. Como bruxaria. Como forças ocultas. O escuro é silêncio dessas coisas de você, Sr. O. Sua luz branca me atrasa os pensamentos de desespero. Eu não quero dormir para poder ter mais tempo com isso que está para acontecer a qualquer momento mas não acontece nunca. Esse mundo, Sr. O, não pode ser bom para o senhor e para mim ao mesmo tempo. Ele não pode. Eu quero que ele acabe.


PS.: sua mãe está infeliz.