E ela acabou pensando na sua
morte. Seu caixão. Sua roupa. Seus dedos. Um terço? Não seria adequado um
terço. Um terço. Foi estranho pensar na ausência dela mesma ali naquele
endereço onde estaria seu corpo. Foi estranho pensar ausência com pernas olhos
mãos coração boca e ouvidos. Estranho pensar naquilo tudo imóvel. Parado.
Paradinha ela num lugar que não lhe diria mais respeito. O vento. O frio. O
calor. A mosca a lhe incomodar o nariz. As flores sem rinite. Os botões sem
incomodar as costas. Não foi um pensamento bom esse. Resolveu aumentar o
quadro. Os outros. Aquele que foi. Aquele que não foi. Aquele que chorou pouco.
Aquele que teve que ser medicado. Aquela que ficou o tempo todo. A outra que
não aguentou. Aquele que espirrou. Aquela que tomava guaraná zero. Todas
aquelas pequenas coisas sendo feitas ao redor dela. Aquela morta. Era estranho
pensar nisso, mas era impossível não estar no centro do pensamento a própria
face fria. Que coisa chata que deve ser morrer. E que demore. Ela levantou num
solavanco. Era tarde e o pensamento da morte fez com que ela precisasse de um
vinho branco. O gole foi longo. Um choro. Outro gole. Água. Uma entra outra sai.
A ideia do corpo seco voltou a atormentar. O vinho seco corpo imóvel vida um
gole longo que acaba. Voltou ao cenário. Aumentou ainda mais o quadro. Lá fora,
na rua do velório, um cachorro passou isento ingênuo de seu inevitável fim. Um
gole mais curto o do cachorro mas ele passeia como se não fosse. Ficou a inveja
do cachorro amarelo que passeava na rua do velório imaginado. Uma árvore que
balança. Um dois três carros. O jornal da noite grita num bar de esquina. Ela
volta para a imagem dela deitada. Seria bom levantar e tomar um pingado. Ela
fica feliz por poder tomar um pingado, mas deixa pra daqui a pouco. Ainda tenho
tempo, pensa no travesseiro. O velório volta. Ela aumenta mais o quadro. De
cima tudo sempre me pareceu um tecido estampado, ela pensa. É pra lá que leva
seu velório imaginado. Olhando lá de cima nem viu o corpo nem o terço nem os botões
nem o cachorro nem a fumaça do pingado. O tecido estampado cobre tudo. Eu
disse, Suzana, que a vida não tem sentido! Pensou. Volta quietinha pro travesseiro.
Vez em quando volta a morta. Ela morta volta. Ela espanta num tremelique. Amanhã
e tremelique são coisas de gente viva.
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
Sr. O.
Sr. O., gostaria de dizer ao
senhor que seria bom para o senhor que fôssemos todas explicáveis resumíveis
conceituáveis previsíveis. Quem te dera, Sr.O, que o senhor tivesse razão e
todas nós no fundo nos odiássemos e falássemos apenas sobre os senhores, detentores
de todas essas cadeiras giratórias. Esse mundo, Sr. O, não pode ser habitado em
paz por nós. Escolho o meu lado, afinal. Aqui o chão é terra e não tem parede
pintada. Bem que o senhor queria que fôssemos todas domesticadas aromatizadas
pasteurizadas depiladas vestidas conforme. Não somos, Sr. O. A vida nasce entre
pelos. Reconheça, Sr.O, que estamos em lados opostos da trincheira. Quem te
dera se tivéssemos sido todas anestesiadas cirurgicamente lavadas cortadas
precisadas de doutor e de clínica de doutor e de horário de doutor disponível.
Mas, Sr. O., nós experimentamos ser dona do nosso tempo nosso templo nossa
vertigem aborígene. E sabemos não em nossas mentes mas em nossas vísceras que
somos donas do mundo se assim quisermos. Não esse nosso, Sr. O. Esse é do
senhor. O senhor venceu. Fique com ele, aliás. Ignore que sua mãe é triste
mesmo que insista em colocar foto dela com papai sorrindo felicidade
entredentes. Ignore e tome esse mundo para o senhor. Ele não pode ser de nós
dois. Fique com ele. Não o quero. Quero aquele outro que está ali dobrando a
esquina dessa rua que não acaba nunca mas eu não vou parar de andar. E mesmo
quem não anda, Sr. O, mesmo aquela que ficou parada sente naquele fundinho de
canto de entranha de alma de muco de música ancestral que tem alguma coisa que
precisa virar no avesso pra gente poder existir aqui. Nós não somos adaptáveis.
Nós estamos tristes, Sr. O, nesse mundo cheio de geometria sem círculo de
palavra sem eco de coisa caída no chão coisa morta que alguém atropelou e levou
para passear com coleira. Nós estamos escolhendo, Sr. O. Escolho experimentar
um raciocínio com lógicas de frio na espinha e suspiro de vento quente no
estômago e choro que vem quietinho não porque sou mulher de Vinícius e sou
linda chorando baixinho mas porque o desespero está escondido e vem gritar de
noite. Como bruxaria. Como forças ocultas. O escuro é silêncio dessas coisas de
você, Sr. O. Sua luz branca me atrasa os pensamentos de desespero. Eu não quero
dormir para poder ter mais tempo com isso que está para acontecer a qualquer
momento mas não acontece nunca. Esse mundo, Sr. O, não pode ser bom para o
senhor e para mim ao mesmo tempo. Ele não pode. Eu quero que ele acabe.
PS.: sua mãe está infeliz.
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