Sr. O., gostaria de dizer ao
senhor que seria bom para o senhor que fôssemos todas explicáveis resumíveis
conceituáveis previsíveis. Quem te dera, Sr.O, que o senhor tivesse razão e
todas nós no fundo nos odiássemos e falássemos apenas sobre os senhores, detentores
de todas essas cadeiras giratórias. Esse mundo, Sr. O, não pode ser habitado em
paz por nós. Escolho o meu lado, afinal. Aqui o chão é terra e não tem parede
pintada. Bem que o senhor queria que fôssemos todas domesticadas aromatizadas
pasteurizadas depiladas vestidas conforme. Não somos, Sr. O. A vida nasce entre
pelos. Reconheça, Sr.O, que estamos em lados opostos da trincheira. Quem te
dera se tivéssemos sido todas anestesiadas cirurgicamente lavadas cortadas
precisadas de doutor e de clínica de doutor e de horário de doutor disponível.
Mas, Sr. O., nós experimentamos ser dona do nosso tempo nosso templo nossa
vertigem aborígene. E sabemos não em nossas mentes mas em nossas vísceras que
somos donas do mundo se assim quisermos. Não esse nosso, Sr. O. Esse é do
senhor. O senhor venceu. Fique com ele, aliás. Ignore que sua mãe é triste
mesmo que insista em colocar foto dela com papai sorrindo felicidade
entredentes. Ignore e tome esse mundo para o senhor. Ele não pode ser de nós
dois. Fique com ele. Não o quero. Quero aquele outro que está ali dobrando a
esquina dessa rua que não acaba nunca mas eu não vou parar de andar. E mesmo
quem não anda, Sr. O, mesmo aquela que ficou parada sente naquele fundinho de
canto de entranha de alma de muco de música ancestral que tem alguma coisa que
precisa virar no avesso pra gente poder existir aqui. Nós não somos adaptáveis.
Nós estamos tristes, Sr. O, nesse mundo cheio de geometria sem círculo de
palavra sem eco de coisa caída no chão coisa morta que alguém atropelou e levou
para passear com coleira. Nós estamos escolhendo, Sr. O. Escolho experimentar
um raciocínio com lógicas de frio na espinha e suspiro de vento quente no
estômago e choro que vem quietinho não porque sou mulher de Vinícius e sou
linda chorando baixinho mas porque o desespero está escondido e vem gritar de
noite. Como bruxaria. Como forças ocultas. O escuro é silêncio dessas coisas de
você, Sr. O. Sua luz branca me atrasa os pensamentos de desespero. Eu não quero
dormir para poder ter mais tempo com isso que está para acontecer a qualquer
momento mas não acontece nunca. Esse mundo, Sr. O, não pode ser bom para o
senhor e para mim ao mesmo tempo. Ele não pode. Eu quero que ele acabe.
PS.: sua mãe está infeliz.