domingo, 4 de agosto de 2013

VIDA NÚMERO 4: Maristela tem uma amiga



(Sentada no sofá de Maristela está Mariana. Ela olha um álbum muito grosso. Maristela entra.)

Maristela: Mari.
Mariana: Oi, amor.
Maristela: O que você tá fazendo com isso na mão?
Mariana: Eu achei.
Maristela: Onde? Você tirou de onde?
Mariana: Do seu esconderijo. Te conheço há muito tempo, Mari.
Maristela: Você não podia...
Mariana: Não vou sair daqui sem a gente conversar sobre isso.
Maristela: Não tenho nada a dizer. Se não me entendeu depois de ver isso, desista de mim.
Mariana: Nunca.
Maristela: Quer um café?
Mariana: Quero.
Maristela: Acho que preciso de um uísque.
Mariana: Toma só um café, Mari. Vamos conversar.
Maristela: Como você entrou?
Mariana: Peguei a chave com seu irmão. Ele me ligou.
Maristela: Aquele merda.
Mariana: Não fala assim.
Maristela: Faz três meses que ele não me liga.
Mariana: Ele estava doente.
Maristela preocupada: O que ele tinha?
Mariana: Depressão.
Maristela irritada: Então ele que vá tomar no cu!
Mariana: Mari, nunca te vi assim.
Maristela: Mudei.
Mariana: Tanto faz pra mim.
Maristela: Vou fazer o café.

(Maristela sai. Mariana continua folheando o álbum.  Maristela fala com ela do outro cômodo. Mariana começa a chorar vendo o álbum.)

Maristela: Mari, desculpe, viu? Estou feliz que você veio. No final das contas, eu só tenho você.
Mariana: Eu sempre estarei aqui.
Maristela: Você gosta de café bem forte ou pode ser chafé?
Mariana disfarça as lágrimas: Pode ser do jeito que você gosta, meu amor. Tanto faz.
Maristela: Açúcar ou adoçante?

(Silêncio. Mariana chora.)

Maristela: Açúcar ou adoçante, Mari?

(Silêncio. Mariana chora.)

Maristela: Vou levar os dois. Você dormiu aí?
Mariana recomposta: Quase.
Maristela ainda do outro cômodo: Mari, você tá lembrando que hoje faz 18 anos que nossas mães morreram? Aquelas vacas!
Mariana: Cala a boca, Maristela!
Maristela chega com o café: Vacas mesmo! Você está chorando.
Mariana: Já parei.
Maristela: O que aconteceu, Mari?
Mariana: O que aconteceu, Maristela? O que aconteceu? Você que saber...
Maristela: Você me chamou de Maristela duas vezes. Me chame de Mari.
Mariana: Mari 1.
Maristela ri: Sim, Mari 2?
Mariana ri: Como a gente era ridícula!
Maristela ri: Como a gente era feliz...
Mariana: Não odeie nossas mães. Elas estavam tentando de novo. Ser feliz, sabe?
Maristela: Não. Não sei mais...
Mariana: Como pudemos não perceber que elas estavam desesperadas? Mari, elas estavam bem aqui...Elas estavam aqui e nós as deixamos partir.
Maristela: Elas pularam, Mari. Elas que pularam e nos deixaram aqui. Com quantos anos? 12! 12 anos, Mari!
Mariana: Hoje eu entendo.
Maristela: Eu não. Elas tinham a gente. Não podiam...Eu entendo com a mãe dos outros, mas com a minha não dá...
Mariana: Você se incomoda mais com o namoro ou com elas...

(Mariana para de falar. Não consegue.)

Maristela: Com elas pularem? Fala, Mari! Por isso, que eu digo, aquelas vacas!
Mariana: Cala a boca!
Maristela: Cala a boca você! Fica aí chorando a morte de duas pessoas que nunca nos amaram. Elas pularam de um prédio e nós vimos! Nós duas! Você lembra quando nossos pais acharam as cartas? As duas estavam...E você fica aí achando que elas tinham razão! E vem aqui me dizer que eu estou errada por chamar as duas de vacas! Vacas! Vacas!
Mariana: Mari, você pode falar o que quiser. Eu não vou desistir de você. Eu vim aqui pra te ver.
Maristela: Minha mãe se jogou de um prédio. Ela fez um rabo de cavalo em mim, passou perfume na minha roupa, me deu um beijo e pulou. E a gente feliz por que sua mãe tinha vindo passar a tarde com a minha e a gente podia conversar sobre aquele menino. Quem era aquele menino que a gente gostava as duas? Eu não sei...Mas elas pularam na nossa frente. Eu nunca mais prendi o cabelo. Lembro daquele rabo de cavalo me puxando o cabelo, lembro dessa dor enquanto via minha mãe pular.
Mariana: Mari, elas estavam sozinhas.
Maristela: Nós estávamos lá.
Mariana: Nós não podemos curar toda a solidão das nossas mães. Nós não temos esse poder, Mari. Existe uma solidão de mãe que filho nenhum cura. Elas estavam tentando. Mas não conseguiram.
Maristela: Eu sei.
Mariana: Você está tentando também?
Maristela: Não sei.
Mariana: Está tentando ser feliz, Mari?
Maristela: Acho que sim, mas ainda não sei.
Mariana: Você é a mulher mais linda que já vi na vida.
Maristela: Isso é uma mentira.
Mariana: Não é. Você é linda. Sempre foi. Lembra daquele menino que você falou? Ele se chama Guilherme. Eu sei bem, por que era pra mim que ele não olhava. Aí fica mais difícil de esquecer. Você sempre foi a Mari 1  e eu a Mari 2. Você é linda. Mesmo agora que faz toda a força para não ser. Linda!
Maristela: E o que aconteceu comigo, Mari? Com toda essa beleza que você diz? Eu era engraçada e estava sempre cheia de gente perto de mim. E o que aconteceu comigo, Mari? Eu estou definhando nesse apartamento. Aqui não tem nada de lindo em mim. Eu não tenho pra onde ir e eu nem sei quando isso começou. Talvez naquele dia das nossas mães, talvez depois, com meu pai...Eu já nem sei, por que a vida tem sido isso pra mim: uma sequência de más notícias.
Mariana: Se eu te levar num médico, você vai?
Maristela: Vou.
Mariana: Vou procurar um amanhã. Hoje vou sair correndo daqui e resolver muitas coisas. Você sabe, né?
Maristela: Sei.
Mariana: Mas eu vou procurar um médico pra você. Vou te levar num médico e ele vai te dar remédios. Você vai ter que tomar.
Maristela: Ok.
Mariana: Levanta sua blusa.
Maristela: Não.
Mariana: Levanta, Mari. Eu quero ver. Não tenha medo. Eu não vou te repreender. Eu só quero ver se está infeccionando ou algo assim.

(Maristela levanta a blusa e sua barriga está cheia de cortes. Alguns cicatrizados e outros ainda vermelhos. Maristela chora ao mostrar para a amiga.)

Maristela: Desculpa, Mari.
Mariana: Não tem problema, meu amor. Por que você voltou a fazer isso?
Maristela: Nunca parei.
Mariana: E por que fotografar, Mari?
Maristela: Não sei...Me faz bem...

(Mariana folheia o álbum. Lá fotos de partes de Maristela cortadas e queimadas. Cada foto tem uma data e ao lado uma figura de algo que Maristela não tem. Ao lado da foto da barriga cortada, a foto de um bebê. A cada foto de corte da barriga, um bebê ao lado.)

Maristela: É que me deu vontade de ser mãe...
Mariana: Só está se cortando na barriga?
Maristela: Só. Eu juro!

(Mariana vê outras fotos, mais antigas. Maristela com pequenos cortes no pescoço, escondidos pelo cabelo sempre solto. Ao lado, fotos de mulheres com cabelo preso. Maristela com queimaduras  de cigarro na lombar e ao lado fotos de atrizes famosas fumando.)

Maristela como quem mostra um álbum de fotos de uma viagem: Essa aqui é de quando eu queria fazer um penteado bonito, mas não conseguia. Essa outra foi quando eu quis fumar, mas sei que faz mal. Não fumo, não! Nenhum trago! Essa outra é de quando eu estava namorando e não tinha onde me cortar. Eu cortava aqui, no meio dos dedos. Fiquei sem usar sandálias. Aí eu colei estas aqui. São lindas estas sandálias.

(Mariana olha pra ela, desolada.)

Maristela: Esse aqui é engraçado! Vi esse casal na rua! Eles estavam fazendo carinhos no metrô. Lindos! Lindos! Nunca ninguém me fez carinho no metrô...Bom, mas aí eu tirei essa foto deles e fiz várias versões no computador. Fiz uns cortinhos pequenos perto do coração. Aqui. Tá vendo?

(Maristela parece perder de vez a sanidade.)

Maristela rindo: Ah! Mari! É cada história que tem aqui! No fundo foi bom você ter achado esse álbum. Ele é lindo! Olha essa aqui! É de ontem. Usei um estilete bem fininho. Cortei um pedacinho bem pequeno da minha barriga. Sangrou muito. Aí eu passei a mão. Fiquei com as duas mãos cheias de sangue. Passei no rosto. Aí eu pus uma música e dancei pelada, cheia de sangue! (ri) Fiquei assim pela casa! Acredita? Aí eu achei essa foto desse nenê recém-nascido. Cheio de sangue também! Achei isso tão lindo, Mari! Tão lindo! Era eu renascendo! Nascendo cheia de sangue e dançando pelada! Como quando a gente nasce, sabe? E isso foi ontem! E adivinha o que aconteceu hoje? Adivinha! Uma coisa maravilhosa!

Mariana está chorando: Sério, Mari? Que ótimo! O que foi que aconteceu?
Maristela: Ué, Mari! Você! Você veio me ver!
Mariana: Eu viria de qualquer jeito. Não precisava ter feito isso.
Maristela: Isso é uma coisa que a gente não sabe, Mari! Talvez você tivesse vindo, talvez não. Mas estou feliz que você está aqui.
Mariana: Eu volto amanhã  pra te levar no médico.
Maristela: Mas eu já estou bem melhor. Acho que não precisa.
Mariana: Se cuida, meu amor. Eu venho te pegar amanhã.
Maristela: Por favor, volte.

Mariana: Sim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.