quarta-feira, 31 de julho de 2013

VIDA NÚMERO 2: Maristela, suas casas e seus cheiros.




Sabe uma coisa que eu não me conformo? A gente ser todo mundo igual. A gente ter dois olhos e um nariz e uma boca, enfim, ter essas coisas básicas da carcaça. Isso me leva a crer que, no fim, ninguém é nada mesmo. Não importa, sabe?  Eu acho que seria justíssimo algumas pessoas terem três olhos ou duas bocas. Acho que seria justíssimo mesmo.  Mas isso não importa também. 

Maristela criança tinha dessas coisas de pensar absurdos. A mãe e o pai nem ligavam, mas tinha um tio que ela só via no Natal, que achava a menina genial. Ele gritava, cuspindo no peru: “Vocês ouviram o que disse a menina? Ela é genial! Genial!” Mas o tal tio morreu. E nunca mais se falou em genialidade para Maristela. Todos a achavam comum.  Menos ela mesma, obviamente, que se achava um gênio incompreendido. Ah! Se algum dia me descobrem por aí! Olhava-se no espelho todos os dias longamente, desde criança. Maristela, menininha bonita, foi ficando linda. E de tanto ser linda, um dia ficou feia e não teve quem a fizesse voltar a ser linda de novo. Toda sua casa é um remendo. Maristela, sempre pobre, ganhando uma miséria, foi ganhando sofá da tia, geladeira da avó, armário velho do tio, sapato apertado da prima e foi construindo seu palácio. Maristela não tinha forças para mudar em nada sua casa. Não tinha criatividade nem dinheiro, de modo que toda possibilidade de renovação, logo vinha abaixo e Maristela acumulava nas costas mais uma frustração. Mas se for descoberta e virar cantora, aí mando decorar minha casa com decorador muito bom e vou me sentar numa sala com sofá novo e televisão enorme. Meu banheiro vai ter uma hidromassagem e meu closet... Mas por enquanto, eu me viro com isso aqui mesmo. Quando sua mãe morreu, ficou aquela casa cheia de cheiro de mãe sem mãe dentro. Ficaram as roupas da mãe, o sofá da mãe, os pratos da mãe também tinham cheiro de mãe! E Maristela entrou naquela casa e nunca conseguiu chorar. Olhava pra aquilo e queria botar fogo em tudo. Ficou olhando para tudo aquilo, com seu incêndio imaginário, queimando os móveis com a mãe junto. Precisava queimar a mãe junto. Minha mãe sempre soube me fazer bem e eu sempre achei que ela não tinha o menor direito de morrer.  Deixou ali um cheiro insuportável de mãe e morreu! Eu acho que isso é falta de amor. Se ela pudesse se ouvir, veria que estava começando ali a ficar completamente louca, insana por julgar a mãe que nada fez a não ser exercer o seu direito básico de morrer. Mas Maristela não ouvia nada. Só música. Trancava-se no quarto, desde muito nova, e ouvia música muito alta. Se estava triste, ouvia música triste para chorar e cortar os pulsos. Se estava feliz, ouvia a música mais alegre do mundo e ficava quicando pelo quarto como uma criança eufórica. Quando eu era feliz, eu era assim: tudo ou nada. Não conseguia ficar no meio do caminho, em cima do muro, mas agora é tudo igual, tudo a mesma coisa e tanto faz. Tanto faz. Já tive essa vontade louca de viver, mas passou. A não ser que eu vire artista, a não ser que meu sonho se realize. Maristela era de uma geração em que sonhos pareciam cair no colo dos escolhidos pelo destino. Ela estava onde deveria estar: sentada, à espera do sonho caído. Não caiu.  De tudo isso na minha casa, a coisa que mais gosto é de uma toalhinha vermelha. Está furada a toalhinha da minha avó. Ela tem cheiro de vovó, mas não é ruim como o cheiro da minha mãe. É bom. Minha avó morreu só quando tinha que morrer, bem velhinha e com os cabelos prateados. Não acho que minha avó teria morrido se pudesse evitar. Morreu porque não tinha jeito. Mas minha mãe não e nem meu pai. Meu pai morreu depois e me deixou sozinha com aquele moleque do meu irmão. Moleque. Com 13 anos, aquele moleque de espinha na cara. Eu não sabia o que fazer com aquilo. Amo tanto meu irmão! E tive que dar comida pra ele. Tive que aprender a fazer ovo e feijão. Odeio ovo e feijão. E meu irmão saía peidando pela casa um peido fedorento que misturava com o cheiro da mamãe que eu não queimei e misturava com o cheiro do meu pai que tinha um cheiro forte de desodorante do comercial que traz um monte de mulher mas nunca trouxe nenhuma. Eu deitava embaixo da cama com a toalhinha da minha vó cobrindo minha cabeça. Deitava e ficava ali por horas. Se era domingo, ela passava o dia inteiro ali com a toalhinha da vó na cabeça, se era dia útil, ela passava a madrugada toda. A casa era limpa e Maristela trabalhava. Não havia quem desconfiasse que ela tinha essas crises de gente louca. Ninguém poderia dizer que aquela menina que já tinha sido linda, estava morrendo. Maristela um dia vestiu uma camiseta branca onde estava escrito: “Socorro. Estou morrendo.”. Ela mesma havia escrito, com letra vermelha. O irmão olhou pra aquilo e riu até cair no chão. Ele não sabia que era sangue de Maristela e que ela havia começado a se cortar bem fininho com uma agulha enferrujada. É que teve um dia que veio uma colega vender creme hidratante pra mim. Ela trouxe um monte. Eu fui experimentando. Até que eu passei um no braço. Era uma sexta feira, fim de tarde, depois do trabalho. Senti aquele cheiro e meu corpo ficou gelado. Eu comprei o hidratante e passei o final de semana todo passando o creme no braço e cheirando. No primeiro dia, eu chorei. No segundo, sem ter mais como chorar, eu senti vontade de enfiar uma agulha no meu braço. Enfiei uma vez, duas e três, até que perdi a conta. Passei o creme e enfiei agulhas no meu braço até que o creme ficou rosado do meu sangue. Aí eu deitei, fechei os olhos e vi o bebê que eu fui embalado nos braços da minha mãe, vi a menina que era passando a mão pequena nos braços dela, vi minha mãe olhando para mim, sorrindo de leve, me amando suavemente, por pouco tempo, tão pouco. Vi minha mãe nua, saída do banho, toalha branca na cabeça passando pelo corpo o hidratante que eu agora estava usando. Maristela levantou-se num sobressalto, com os braços ensanguentados e o cheiro de sangue e erva doce. Era a mãe que voltava com seu cheiro de mãe. Maristela deixou-se dormir e chorar, mas pôs o despertador para as sete horas da manhã da segunda-feira. E quanto ele tocou, Maristela lavou seu corpo e foi trabalhar. Ninguém que cruzou com Maristela na rua naquele dia poderia imaginar que aquela moça quase bonita, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, quase uma moça bonita, mas nada demais, aquela moça comum, vestida como todas, aquela moça com óculos de sol, que aquela moça lá, estava desesperada.


(uma das vidas da peça "As 7 vidas de Maristela")

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