Hoje eu quero
fazer uma aula bonita – disse a professora de expressão corporal. Nunca me
esqueci disso. Ela mostrou seu planejamento. Rabiscado no topo da página,
estava o escrito “aula bonita”. Como certas coisas mudam para sempre a direção
da nossa arte, da nossa vida...Eu vi, naquele dia, naquele momento, a
possibilidade de fazer as coisas para serem bonitas e só. Porque não é só. É
muito.
Algumas coisas
ficam na nossa memória. Como recortes breves de quem somos. Não separo essas
lembranças daquilo que sou. Eu não lembro daquilo. Eu sou aquilo.
Certa vez choveu
pingos de chuva muito grandes na janela. Eu lembro de olhar para aquelas gotas
e me espantar. Como pode? Eram enormes. Lembro que era de madrugada. Tinha uma
luz bem azul. Eu tinha areia nos olhos. Alguém ao meu lado não podia ser
acordado. Talvez minha irmã. Aquela sensação de céu desabando, crescente na
minha imaginação infantil, aquele barulho forte. Todos dormindo e eu acordada.
Acho que eu estava com medo. Não sei...não guardei. Guardei a luz azul no
enorme pingo d´água que caiu na janela.
Eu vivi 18 anos
com meu avô. Ele era um sonho. Avô de histórias. Velhinho e doce. Eu quase não me
lembro de momentos com ele. Eu me lembro de suas mãos. Eram finas como papel de
seda. Tinha as unhas cortadas e gostava de dar uns tapinhas na nossa cabeça. Me
chamava de pirulitinho. Lembro-me de quando eu percebi que ele era velhinho,
por que vi o seu modo lento de descascar uma maçã. Eu nunca comia o suficiente.
Ele sempre queria me dar uma maçã. E ele sempre me achou nova demais para mexer
com faca. Com 15, 16 anos, meu avô ainda descascava a minha maçã. Não me
esqueço dessa maçã. Ela é tudo: a lentidão, o carinho, o cuidado, as mãos, meu
avô.
Lembro da minha
filha nascendo e talvez essa seja a lembrança mais peculiar de todas! Eu não
lembro do rosto dela de recém nascida. A imagem é sempre do rosto atual. Lembro
da sensação. Ela saindo de mim. Eu, aos gritos, forte, corajosa, fazendo o que
as mulheres fazem desde que o mundo é mundo. A voz rasgada, intensa, urros. Não
aqueci a minha voz e não fiquei rouca. A minha voz era eu inteira. Eu tive a
sensação de que gritava pelo ventre e não pela boca. E, de repente, o silêncio
dos olhos da minha filha. Enormes! Silêncio. Como nunca havia existido antes.
Não lembro se minha filha chorou. Silêncio. O espanto! Minha filha! O amor! A
vida! A cada dia, ela renova isso em mim. Eu atualizo seu rosto, por que seu
rosto, hoje, me traz o mesmo espanto, sempre.
Cada memória. Um
pedaço de mim. Infinitos pedaços que não lembro, que não sei. Estão lá também.
Ser artista,
mexer com essas coisas. Como dói!
Na superfície
não chego a lugar algum. Preciso vasculhar cada detalhe. E não é com precisão.
É caótico, barulhento, ruidoso.
E a dor de saber
que há tanto em mim, mas muitas vezes, sou nada em cena. A tristeza do ator de
compreender que existem as coisas belas, que são o espanto, o silêncio, mas isso
tudo muitas vezes é confuso, não projeta, não expressa. A sensação terrível de
talvez ser medíocre, gastar o palco a toa. Com tantas coisas em mim...
Profissão
estranha. Por que mesmo que eu faço isso?Não respondo. Já está respondido. Faço
e pronto. Porque eu quero fazer uma coisa bonita.
Numa manhã de
domingo. Antes do almoço. Eu ouvi Elis. Eu não sei dizer o que foi. Eu passei a
viver numa devoção por aquela voz, por aquela artista. Eu era tão jovem e
demorei mais de dez anos pra assumir que eu também queria ser artista. Era
alguma coisa...eu não sei bem...a voz era afinada, mas não era isso. Ritmo,
tom, melodia, letra, mas ainda não era isso. Eu passei anos ouvindo Elis sem
ver seu rosto. E, espanto!, quando vi, já o conhecia. Ouvir Elis e vê-la é a
mesma coisa. Ela está inteira na sua voz. Sabe-se quando ri, quando chora,
quando samba. Está tudo lá.
Talvez ela pudesse cantar as mãos do meu avô. Mesmo
que isso esteja em mim.
Isso é arte, por fim? Cantar a memória dos outros?
Nesse tempo da "sociedade do espetáculo", arte é fazer o que você faz minha irmã querida, nos emocionar honrando as nossas memórias.
ResponderExcluirLinda...snif, emocionei
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