domingo, 21 de julho de 2013

Mulheres do Bairro

O espectro de Laura estava deitado no sofá. Laura tinha sido uma moça muito bonita. Não era mais. Não era mais nada. Ela estava muito cansada e deitou-se no sofá. Espectral, assistindo televisão, encheu a pança de batatas fritas. Bebeu duas taças de vinho doce. Ela estava virando uma linha fina de gente, um pontilhado sem ser contornado por nenhuma mão, nem mesmo inseguras mãos infantis. Pontilhado de si mesma, Laura resolveu ligar para sua avó. Ela tinha 90 anos, velha como toda avó deve ser. A avó atendeu ao telefone, preocupada, mas nem tanto. Sua neta não lhe dava permissão para morrer. 90 anos passaram voando, pensou, mas dos 90 para os 91, o tempo parou. Era assim todo ano: a vida passava rápido, enquanto os dias se arrastavam eternamente. A neta era mimada. Todos os dias ligava. A avó ficava sempre esperando para lhe dizer boa noite. Criancinha sem colo, chorava para sua avó. É triste precisar dos outros. Mesmo que os outros sejam seres amados e que nos amam. A neta estava chorando. Nada demais, pensou a avó. A neta perguntou uma coisa que nunca tinha perguntado e a avó percebeu que não era um dia como os outros. Era um dia especial. Dali, daquela Laura, espectro de moça que já foi bonita, daquele pontilhado medíocre deitado no sofá, ninguém poderia imaginar nenhuma atitude. Não parece ser essa a condutora de nada, nenhuma ação, nada, nem fala, nem nada. Um pontilhado...
Laura levantou-se.
Ela arrumou seu cabelo no espelho. Ficou pensando na resposta da avó. Prendeu num coque espevitado. Ficou bem bonitinha. Ai, como era tonta! Saiu. Bateu a porta. Sem trancar. Como é idiota essa menina! Ela andou. Contou oito casas, como num tabuleiro. Oito casas depois, tocou a campainha. Abriu uma moça mais besta ainda. Laura a beijou por três minutos. Ela havia posto um alarme. Ela a beijou e foi correspondida. Pobre Alice! Parecia que seria mais um dia, como os outros, dias idiotas, como os outros. Alice foi beijada por três minutos. Ela fechou a porta. Talvez tenha batido na cara da outra, não sabemos. Alice teve que levar as mãos à boca, mesmo sabendo que aquilo era extremamente clichê. Os espantos são absurdamente clichês. Que sonho! Um beijo clichê. Quem era aquela pessoa? Alice se viu no espelho, de repente, se viu como era: uma velha! Eu tenho 90 anos! Puta que o pariu! Ela chorou. Foi até o banheiro e checou seus seios. Inteiros, para cima. Seios bonitos, eu sei. Seios idiotas! Ela voltou a se vestir. Rapidamente estava vestida com um vestido que tinha sido muito caro. Caro demais para usar em casa! Mas que coisa! Pensou. Alice lembrou-se do beijo. E se convenceu de que estava com roupa de festa para ganhar beijo clichê. Que dia longo. Ainda faltava muito para as seis? Muito, muito. As seis chegaria o marido. O marido era esperado. O marido ia chegar as seis. Alice gostava de trabalhar em casa, mas tinha tantos vestidos! E alguns ainda com a etiqueta. Porra, eu tenho 90 anos! Alice abriu o armário e tirou uma caixinha de costura. Selecionou a agulha mais bonita e fez diversos furinhos no seu braço. Apertou. Ela sangrava só uma gotinha em cada furo. Precisavam ver que coisa linda! Parecia um desenho! As bolinhas vermelhas colorindo seu braço branco. Ela fez uma tatuagem no espelho com aquele sangue tão simetricamente distribuído. Ela sorriu, ela riu. Eu existo! Eu existo!
Eu existo? Pensou Maria.
Eu existo, eu existo. Por que a moça fica repetindo isso como uma besta? Embora impressionada por saber que tinha uma vizinha louca, Maria ficou bem empolgada com a ideia de vigiar a louca e depois contar na escola as coisas que iria descobrir. Amanhã mesmo já será um dia e tanto. Contar dos furos de agulha, da louca gritando que existe. Que coisa mais sensacional! Com certeza seria incrível ver a cara da Joana quando ela contasse essa história! Maria, puta menina tonta, comia os cantinhos do dedo quando ficava nervosa. Estava lá, comendo sua pelinha favorita: a do dedão esquerdo! Filé de si mesma, pelinha boa que só. Comeu tanto que sangrou. Ela deu de chupar o sangue. Ficou ali chupando o sangue! O pai deu um tapa na sua mão. Tira o dedo da boca, menina! Parece tonta! A mãe não gostou do tapa. Ele era um bom pai, mas perdia a cabeça com esse negócio de comer dedo. A mãe fazia igualzinho, comia o dedo. Mas o filé dela era o dedo médio direito, aquele dedo do foda-se.  Puta dedo gostoso! Ela comia, o marido odiava. Ela passou a mania pra filha. Mulher estúpida. Era uma anta! Ficava quieta. Sempre. Que anta! Como é desprezível o ser que só se importa em ser amado por todos, todo o tempo, sem risco de ser menos amado! Ela ficava quieta.
Ela tentou dizer. O marido não estava acostumado. O marido olhou para ela como quem vê um meteoro prestes a bater na terra. Mulherzinha filha da puta. Se eu tivesse um revólver embaixo da minha cama, eu te matava, ele pensou. Só pensou, o gentleman. Oh, senhor príncipe, bata-me na bunda! Pensou a mulher.
Maria num canto. O dedo sangrava. Maria ameaçou chupar o sangue, mas seu pai a olhou. Acho que meu pai não é tão bonzinho assim...
Eu te amo e não quero que você fique doida igual a sua mãe. Disse o pai.
A mulher tinha achado um fio de cabelo branco nos pelos pubianos. Naquele dia mesmo. Ela tinha 28 anos. Uma aberração da natureza. Um pelo pubiano branco aos 28 anos!
Não sabemos se foi isso ou se foi a história do pai que não queria que a filha comesse os dedos. Um passatempo tão inocente. Que ideia! Ficar aporrinhando a menina por causa de um pedaço da sua própria pele! A mulher foi até a cozinha e começou a quebrar todos os copos. Um por um, sem escândalo. Ela quebrou copos de requeijão, copos de geleia, copos de cristal, taças do casamento, canecas personalizadas, todos, todos os copos foram quebrados, menos a caneca de princesa da filha. Depois quebrou todos os pratos. Os fundos, os rasos, os de sobremesa, todos. Depois, com o chão coberto de cacos, começou a pisar, descalça, devagar, sob o olhar apavorado do marido. Ela andava e os cacos abriam seus pés. Faziam barulho. Cortes pequenos e outros nem tanto. Talvez essa mulher tenha morrido. Uma pena. Não teremos tempo de saber. Sangue por toda a cozinha. Você tem razão. Tomara que a menina não fique doida como a mãe.
Maria tinha saído pela porta da frente. Sem ninguém ver. Oito anos. Ela estava uma mocinha, diziam. Eu sou uma mocinha e não preciso mais da minha mãe! Assim que pensou, se arrependeu. Vai que Deus ouve! Que coisa isso de Deus ouvir tudo! Ai, que mundo idiota! Ela estava comendo todos os dedos em paz. Dedos sangrando, peles saindo, grudando na sua língua. Ela tirava e guardava no bolso. Que ideia! Poxa, ninguém ensina onde a gente deve guardar essas coisas. Não podemos jogar lixo no chão! E nem pisar na grama. Mas e os jogadores de futebol? Maria, não seja tonta! Parece que ainda tem cinco anos! Ela era uma mocinha e andava pela rua. Lá na varanda viu uma vovó. Aquele prédio era cheio de vovós! Todas sozinhas. Era um prédio rosa. Tinha um porteiro bigodudo e meio idiota. Ele achava que estava fazendo uma coisa muito importante! Maria riu dele. Até eu já sei não deixar as pessoas passarem! Que coisa feia rir dos outros! Só pode sem que eles ouçam ou sem que eles saibam. Não devemos menosprezar nenhuma profissão e nenhum homem! Todos são importantes! O pai dela sempre dizia. Ah, é? Então fica lá no lugar do bigodudo! Ou vai limpar cocô no banheiro da escola! Maria divertia-se com a conversa na cabeça e com as unhas comidas. Ah, a vovó! Quase que me esqueço dela! A vovó deu um tchau pra Maria. Como balançam esses braços pelancudos! Quando for velha não dou mais tchau. Maria deu um tchauzinho com uma mão, enquanto a outra continuava a servir de almoço. Aquela vovó fuma! Que coisa mais estranha. Não combina, não sei. Estranho.
Antonia fumava, sim. Algum problema? Velha de 90 anos não pode fumar? Ela ria, mostrando a dentadura. Não posso mais fuder, não posso comer que me dá caganeira, não posso beber que meu fígado tá fudido! Me deixa fumar, porra! Velha idiota! Ninguém deixava ou não deixava. Ninguém estava nem aí para o que ela fazia ou deixava de fazer. A empregada todos os dias passava café. Ela tomava café e fumava cigarro na varanda. Cada cigarro durava, em média, quatro minutos. Nesses quatro minutos, Antonia era nova. Ela estava na varanda fumando, esperando seu namorado chegar. Comia os dedos, de tanta ansiedade. Hábito de doida, já dizia seu pai. Graças a Deus ela o tinha perdido. Que homem bonito aquele! Ele não gostava que ela fumasse, mas suportava. As fumantes eram as únicas que faziam sexo oral. As fumantes eram incríveis na cama. Embora fedessem na boca. Sorte que meu pau não sente cheiro, pensava o outro, acenando para a fumante boqueteira dos anos 50. Mas ela tem 90 anos! Ela tem 90 anos! Ela acabou o cigarro. Que puta que o pariu que o cigarro passa rápido e a hora de dormir só vem daqui dois anos! Acendeu outro. Foda-se. Já estou no lucro. O celular tocou. A velha procurou. Não achou a tempo. Comeu um pouco o dedo médio da mão direita. Ah, que velha tonta! Ficar nervosa com o telefone! Quem você pensa que vai te ligar? Só pode ser ela.
-Vó?
Caixa postal.
-Velha tonta! Velha tonta! Marlon Brando? – estremece- Não aquele Marlon gordo velho ensebado, aquele outro.
Toca de novo. Ela escolheu a música do Fantasma da Ópera. Por que eu escolhi essa música? Que merda de música...
-Alô?
-Vó?
-Oi, linda! Diz. O que foi? – acende um cigarro.
-Eu acordei muito triste. Preciso de você.
-Venha me ver. Eu estou aqui.
-Não consigo. Eu tenho um monte de coisinhas pra resolver.
-Me diga.
-Isso não acaba nunca? Isso...
A avó apaga o cigarro na própria mão, varre as cinzas com os dedos. A menina saiu correndo. Um marido grita na casa ali do lado. Sua neta. Ela era tão pequena ontem mesmo. A mulher não sangra nos pés. Não podemos nos ater a esses detalhes de morrer ou não. Um sangue escorre. O espelho se quebrou. O vestido era tão bonito. Foi um beijo tão bom que só poderia ser o primeiro ou o último. Não havia sido o primeiro. A menina quis um balão, mas não pode comprar. Entendeu que ainda precisava do pai e da mãe. Sentou na sarjeta. Comeu todos os dedos novamente. Todos em carne viva. Ela pode voltar para casa. Sua mãe preparava um leite quente na caneca de princesa. O pai lia o jornal. A menina deu um tchau para sua mãe. Minha mãe está pálida. Mamãe, você machucou seus braços? Mamãe? Não foi nada, meu amor...a mamãe está um pouquinho doente. Nós temos uma vizinha louca. Eu existo! Um pedacinho tão pequeno de espelho. Um pedacinho minúsculo onde cabia apenas a boca do último beijo. Eu estou cansada. Vó? Vó?

-Não. Não acaba nunca, meu amor.

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