Cheiros. Cores. Nomes.
Palavras. Sonhos. Outros.
Passado. Fotografias. Velhice.
Cão morto. Quintal velho. Revista amarelada.
Mãe jovem. Avô vivo. Olhos brilhantes. Vida.
Respiro.
Choro.
Permaneço atenta.
Atenção! A vida passa.
Clichês. Músicas. Cartas.
Amor. Nudez. Quadros.
Filmes. Novelas. Comerciais.
Não sei se sou artista.
Não sei fazer arte.
Eu passo.
Milagre. Muleta. Fralda.
Minha bisavó. Minha filha.
Minha avó. Meu pai.
Piscina. Clube. Colégio.
De tudo que sempre quis, sobrou-me um resquício de
esperança.
Sou artista.
Dinheiro. Carro. Assepsia.
Unhas feitas. Depilação. Mulher.
Cozinha. Mulher. Cortes invisíveis.
Mulher. Cabelo. Louça. Solidão.
Solidão...
A força que precisei para ser artista não é suficiente
para que eu prossiga.
Preciso mais. Muito mais. Continuo.
Eu não sei cantar.
Eu não sei dançar.
Eu não viro de cabeça para baixo.
Eu não tenho alongamento nas pernas.
Eu não vi um milhão de peças.
Eu não li os clássicos.
Eu não conheço aquele diretor.
Eu não li aquele autor.
Eu não reconheço esta citação.
Eu não sei rezar.
Eu não gosto de ciranda.
Eu não...
Mas existe um motivo qualquer.
Eu não sei qual é.
Eu não sei que palavra usar.
Eu não sei qual é a bibliografia adequada.
Mas existe um motivo qualquer.
A solidão é infinita.
Disfarço. Recomponho. Permaneço.
Refaço. Lavo. Recomeço.
Se paro, reviro em febres de arte.
Se faço, cansaço.
Recorto-me em mil faces. Não amo nenhuma delas.
Sigo artista.
Tudo parece bobo, por fim.
Lamentos. Dor.
Peso.
Insônia. Álcool. Medo.
Tudo parece bobo, por fim.
Eu não sei ser
artista...
Machuco. Presa. Gaiola.
Imagino. Solto. Voo.
Eu não sei ser artista em paz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.