É bom estar na cama. O ar é
quente. O sono é quente. Pode, às vezes, ser quente e areado, mas é quente.
Levanta. Precisa ir ao banheiro. Volta. A cama já é morna. Sede. Água. A cama
ainda morna. O sono quente, na cama morna, esfria.
Ele chama para o café. É bom ter
quem prepare o café. A caneca com borda quebrada. A preferida, mesmo que
quebrada. O gole do café, a boca inteira no café, o nariz inteiro dentro da
caneca. A fumaça nos olhos que olham aquele que preparou o café. Como é bom ter
alguém que a ame e prepare o café.
Os olhos se fecham. O cheiro do
café invade a memória dos olhos esfumaçados. Os olhos de dentro são sempre
esfumaçados. Alguém que a ama costumava preparar o seu café. Eu me lembro, eu
estava lá e via com os olhos de fora, ela pensa/sente/sabe. Eu
me lembro dos óculos. Eu lembro. Era quente. Era sol. Tinha a poeira das coisas
antigas e limpas. As coisas antigas não ficam nunca limpas. Por isso antigas,
por isso as amo. Os olhos de dentro choram. Ela esteve lá. E não está mais.
O outro que também a ama pergunta
qualquer coisa. Não sei, responde. Seus olhos estão estranhos, ele diz. Ela
responde que é só a fumaça do café.
É bom tomar café com quem se ama.
É bom tomar café com quem se ama. Em silêncio. O amor respira mal nas palavras.
Está tarde, ele disse. Eu sei,
ela respondeu. Já estou indo, ele. Eu também, ela.
Na porta, os que se amam. No
carro, os que se amam. Na esquina, os que se amam. Na mesa, a caneca.
Na
caneca, esfria o resto de café que nunca será tomado.
Não há mais fumaça.
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