quarta-feira, 24 de julho de 2013

Crianças beijadas pelo papa e a santidade do sorriso do pipoqueiro

Existe uma ligação secreta entre as coisas. É preciso estar atento para percebê-la. Existe uma ligação, que relativiza tudo, que ridiculariza tudo. Pode doer, pode deixar sem chão, mas sem fazer as devidas perguntas, nenhuma fé pode ser verdadeira.
                Eu tenho fé no sorriso do pipoqueiro que vendia pipocas na frente da igreja. Tenho fé no calor que sinto no coração quando me deparo com o carinho sincero de alguém. Eu ia à missa, mas minha devoção sempre foi ao pipoqueiro da praça. No seu carrinho simples, seu avental azul e seu tênis Conga no pé. O padre falava por 2 horas e eu não conseguia entender. Gostava de cantar, mas não podia cantar alto. Na casa de Deus, todos se comportam. Todos põem moedinhas e acendem velas (hoje eletrônicas, como num fliperama). Lembro-me tão bem de quando eu via fiéis repetindo roboticamente as palavras da oração e logo olhando pro lado, conferindo a roupa da outra ou o novo parceiro daquela divorciada. Ainda é assim. Não adianta fingir que não. O princípio de que “somos todos iguais perante Deus” não inclui os que são diferentes. Eis a maior contradição. Se eu sou gay, se eu gosto de saia curta, se eu talvez não acredite na estrutura tradicional da família, aí eu não sou igual. Antes, eu preciso me igualar, me pasteurizar para ser digna da igualdade divina. E eu, criança espertinha, pensando: “Por que não posso ir de saia na missa, se está calor e Deus me criou? Ele já viu minhas pernas. Ele conhece meu corpo. E ele sabe que sou calorenta.” Eu sempre me senti sozinha na igreja. Sempre me senti abandonada com minhas perguntas inaceitáveis.
                Fiz catecismo e resolvi dizer à senhora que dava as aulas que eu me achava inteligente. Ela me disse que ninguém poderia se achar inteligente, que alguém deveria me achar inteligente e não eu mesma. Que eu estava sendo arrogante e que isso não era um comportamento cristão humilde. Eu, até hoje, tenho dificuldade em dizer que sou inteligente. A vulnerabilidade da criança, entre Deus e o Diabo, entre santos sofredores, entre paraíso e inferno, pode ser fatal para a autoestima, para o autoconhecimento. Demorei tanto para perceber que aquela senhora tinha sido absolutamente diabólica comigo. Se existe um diabo, ele aponta dedo e acusa as pessoas; se existe um Deus, ele nos compreende e nos afaga.
                O papa está no Brasil. Eu gosto da figura desse papa. Por que ele tem um sorriso sincero. Pode ser que ele seja um canalha fingidor (eu nunca vou deixar de lado as perguntas, afinal, sou inteligente). Tenho calafrios quando vejo mães jogando suas crianças para o papa beijar. Que tipo de Deus quer que mães deixem seus filhos nesse frio, fora de casa, no meio de uma multidão para ser beijado por um homem que a criança não conhece? A criança não sabe de nada. Ela não tem a fé da digníssima mãe. Ela quer ficar quietinha, ela quer crescer e entender as coisas do mundo. Ela não sabe que Deus está naquele lugar e é representado pela figura solene do papa. Aliás, alguém sabe com certeza? Alguém pode dizer que descobriu a verdade do universo e que ela é a cristã? Não seria isso uma arrogância atroz? Por favor, deixem as crianças em paz. Joguem-se vocês, adultos de fé, no colo do papa, não usem os olhos puros de uma criança como uma arma para atrair o representante da igreja e as matérias do jornal. Isso não tem a ver com Deus (se é que ele existe). Isso é indústria cultural e o papa é popstar. Cuidado, atenção. Existem pipoqueiros de olhar bonito e eles merecem nossa atenção e nosso cuidado. Ensinem para seus filhos que o Papa e o Pipoqueiro são igualmente importantes e, por isso, não precisamos nos aglutinar, dar cotoveladas uns nos outros, para chegar perto do “homem de Deus”.
Se é que ele existe, claro.
Mas, se existe, ele não está num lugar onde a comida deve estar custando uma fortuna ou onde um quer pisar no outro para ter o melhor ângulo de visão. Nem onde se vendem camisetas com foto do papa, nem onde estão sendo distribuídos kits para a pasteurização dos desejos humanos, nem onde existem confessionários distribuídos como banheiros químicos em dia de grande show.
Está no sorriso do pipoqueiro de avental azul e conga azul marinho.

E é nessa igreja que eu batizo minha filha.

2 comentários:

  1. Devagar, devagarinho, também vou gostando "da figura desse papa" e de seu sorriso sincero.
    E parabéns pelo blog!

    Célio Turino

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    1. Obrigada, Célio, pela leitura. Continuemos sempre com as dúvidas, mesmo que isso possa nos trazer solidão. Abraços

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