Existe uma ligação secreta entre
as coisas. É preciso estar atento para percebê-la. Existe uma ligação, que
relativiza tudo, que ridiculariza tudo. Pode doer, pode deixar sem chão, mas
sem fazer as devidas perguntas, nenhuma fé pode ser verdadeira.
Eu
tenho fé no sorriso do pipoqueiro que vendia pipocas na frente da igreja. Tenho
fé no calor que sinto no coração quando me deparo com o carinho sincero de
alguém. Eu ia à missa, mas minha devoção sempre foi ao pipoqueiro da praça. No
seu carrinho simples, seu avental azul e seu tênis Conga no pé. O padre falava
por 2 horas e eu não conseguia entender. Gostava de cantar, mas não podia
cantar alto. Na casa de Deus, todos se comportam. Todos põem moedinhas e
acendem velas (hoje eletrônicas, como num fliperama). Lembro-me tão bem de
quando eu via fiéis repetindo roboticamente as palavras da oração e logo
olhando pro lado, conferindo a roupa da outra ou o novo parceiro daquela
divorciada. Ainda é assim. Não adianta fingir que não. O princípio de que “somos
todos iguais perante Deus” não inclui os que são diferentes. Eis a maior
contradição. Se eu sou gay, se eu gosto de saia curta, se eu talvez não
acredite na estrutura tradicional da família, aí eu não sou igual. Antes, eu
preciso me igualar, me pasteurizar para ser digna da igualdade divina. E eu,
criança espertinha, pensando: “Por que não posso ir de saia na missa, se está
calor e Deus me criou? Ele já viu minhas pernas. Ele conhece meu corpo. E ele
sabe que sou calorenta.” Eu sempre me senti sozinha na igreja. Sempre me senti
abandonada com minhas perguntas inaceitáveis.
Fiz
catecismo e resolvi dizer à senhora que dava as aulas que eu me achava
inteligente. Ela me disse que ninguém poderia se achar inteligente, que alguém deveria me achar inteligente e
não eu mesma. Que eu estava sendo arrogante e que isso não era um comportamento
cristão humilde. Eu, até hoje, tenho dificuldade em dizer que sou inteligente.
A vulnerabilidade da criança, entre Deus e o Diabo, entre santos sofredores,
entre paraíso e inferno, pode ser fatal para a autoestima, para o autoconhecimento.
Demorei tanto para perceber que aquela senhora tinha sido absolutamente
diabólica comigo. Se existe um diabo, ele aponta dedo e acusa as pessoas; se
existe um Deus, ele nos compreende e nos afaga.
O
papa está no Brasil. Eu gosto da figura desse papa. Por que ele tem um sorriso
sincero. Pode ser que ele seja um canalha fingidor (eu nunca vou deixar de lado
as perguntas, afinal, sou inteligente). Tenho calafrios quando vejo mães
jogando suas crianças para o papa beijar. Que tipo de Deus quer que mães deixem
seus filhos nesse frio, fora de casa, no meio de uma multidão para ser beijado
por um homem que a criança não conhece? A criança não sabe de nada. Ela não tem
a fé da digníssima mãe. Ela quer ficar quietinha, ela quer crescer e entender
as coisas do mundo. Ela não sabe que Deus está naquele lugar e é representado
pela figura solene do papa. Aliás, alguém sabe com certeza? Alguém pode dizer
que descobriu a verdade do universo e que ela é a cristã? Não seria isso uma
arrogância atroz? Por favor, deixem as crianças em paz. Joguem-se vocês,
adultos de fé, no colo do papa, não usem os olhos puros de uma criança como uma
arma para atrair o representante da igreja e as matérias do jornal. Isso não
tem a ver com Deus (se é que ele existe). Isso é indústria cultural e o papa é
popstar. Cuidado, atenção. Existem pipoqueiros de olhar bonito e eles merecem nossa
atenção e nosso cuidado. Ensinem para seus filhos que o Papa e o Pipoqueiro são
igualmente importantes e, por isso, não precisamos nos aglutinar, dar
cotoveladas uns nos outros, para chegar perto do “homem de Deus”.
Se é que ele existe, claro.
Mas, se existe, ele não está num
lugar onde a comida deve estar custando uma fortuna ou onde um quer pisar no
outro para ter o melhor ângulo de visão. Nem onde se vendem camisetas com foto
do papa, nem onde estão sendo distribuídos kits para a pasteurização dos
desejos humanos, nem onde existem confessionários distribuídos como banheiros
químicos em dia de grande show.
Está no sorriso do pipoqueiro de
avental azul e conga azul marinho.
E é nessa igreja que eu batizo
minha filha.
Devagar, devagarinho, também vou gostando "da figura desse papa" e de seu sorriso sincero.
ResponderExcluirE parabéns pelo blog!
Célio Turino
Obrigada, Célio, pela leitura. Continuemos sempre com as dúvidas, mesmo que isso possa nos trazer solidão. Abraços
Excluir