terça-feira, 23 de julho de 2013

Memória/macias/história/magia

Hoje eu quero fazer uma aula bonita – disse a professora de expressão corporal. Nunca me esqueci disso. Ela mostrou seu planejamento. Rabiscado no topo da página, estava o escrito “aula bonita”. Como certas coisas mudam para sempre a direção da nossa arte, da nossa vida...Eu vi, naquele dia, naquele momento, a possibilidade de fazer as coisas para serem bonitas e só. Porque não é só. É muito.
Algumas coisas ficam na nossa memória. Como recortes breves de quem somos. Não separo essas lembranças daquilo que sou. Eu não lembro daquilo. Eu sou aquilo.
Certa vez choveu pingos de chuva muito grandes na janela. Eu lembro de olhar para aquelas gotas e me espantar. Como pode? Eram enormes. Lembro que era de madrugada. Tinha uma luz bem azul. Eu tinha areia nos olhos. Alguém ao meu lado não podia ser acordado. Talvez minha irmã. Aquela sensação de céu desabando, crescente na minha imaginação infantil, aquele barulho forte. Todos dormindo e eu acordada. Acho que eu estava com medo. Não sei...não guardei. Guardei a luz azul no enorme pingo d´água que caiu na janela.
Eu vivi 18 anos com meu avô. Ele era um sonho. Avô de histórias. Velhinho e doce. Eu quase não me lembro de momentos com ele. Eu me lembro de suas mãos. Eram finas como papel de seda. Tinha as unhas cortadas e gostava de dar uns tapinhas na nossa cabeça. Me chamava de pirulitinho. Lembro-me de quando eu percebi que ele era velhinho, por que vi o seu modo lento de descascar uma maçã. Eu nunca comia o suficiente. Ele sempre queria me dar uma maçã. E ele sempre me achou nova demais para mexer com faca. Com 15, 16 anos, meu avô ainda descascava a minha maçã. Não me esqueço dessa maçã. Ela é tudo: a lentidão, o carinho, o cuidado, as mãos, meu avô.
Lembro da minha filha nascendo e talvez essa seja a lembrança mais peculiar de todas! Eu não lembro do rosto dela de recém nascida. A imagem é sempre do rosto atual. Lembro da sensação. Ela saindo de mim. Eu, aos gritos, forte, corajosa, fazendo o que as mulheres fazem desde que o mundo é mundo. A voz rasgada, intensa, urros. Não aqueci a minha voz e não fiquei rouca. A minha voz era eu inteira. Eu tive a sensação de que gritava pelo ventre e não pela boca. E, de repente, o silêncio dos olhos da minha filha. Enormes! Silêncio. Como nunca havia existido antes. Não lembro se minha filha chorou. Silêncio. O espanto! Minha filha! O amor! A vida! A cada dia, ela renova isso em mim. Eu atualizo seu rosto, por que seu rosto, hoje, me traz o mesmo espanto, sempre.
Cada memória. Um pedaço de mim. Infinitos pedaços que não lembro, que não sei. Estão lá também.
Ser artista, mexer com essas coisas. Como dói!
Na superfície não chego a lugar algum. Preciso vasculhar cada detalhe. E não é com precisão. É caótico, barulhento, ruidoso.
E a dor de saber que há tanto em mim, mas muitas vezes, sou nada em cena. A tristeza do ator de compreender que existem as coisas belas, que são o espanto, o silêncio, mas isso tudo muitas vezes é confuso, não projeta, não expressa. A sensação terrível de talvez ser medíocre, gastar o palco a toa. Com tantas coisas em mim...
Profissão estranha. Por que mesmo que eu faço isso?Não respondo. Já está respondido. Faço e pronto. Porque eu quero fazer uma coisa bonita.

Numa manhã de domingo. Antes do almoço. Eu ouvi Elis. Eu não sei dizer o que foi. Eu passei a viver numa devoção por aquela voz, por aquela artista. Eu era tão jovem e demorei mais de dez anos pra assumir que eu também queria ser artista. Era alguma coisa...eu não sei bem...a voz era afinada, mas não era isso. Ritmo, tom, melodia, letra, mas ainda não era isso. Eu passei anos ouvindo Elis sem ver seu rosto. E, espanto!, quando vi, já o conhecia. Ouvir Elis e vê-la é a mesma coisa. Ela está inteira na sua voz. Sabe-se quando ri, quando chora, quando samba. Está tudo lá. 

Talvez ela pudesse cantar as mãos do meu avô. Mesmo que isso esteja em mim. 

Isso é arte, por fim? Cantar a memória dos outros? 


2 comentários:

  1. Nesse tempo da "sociedade do espetáculo", arte é fazer o que você faz minha irmã querida, nos emocionar honrando as nossas memórias.

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