É dia de escrever. Porque sonhei. Porque ontem fez dois meses de uma e uma semana da outra. Porque está muito difícil.
Sigamos. Vamos em frente. É a vida. Dessa para melhor.
Pontos finais para fora. Eu reticências dentro.
Porque dói. Porque dá saudades. Porque me dá vazio. Porque eu me encho de incertezas. Porque aparece o medo.
Os dois maiores medos: perder quem me cuida; perder quem eu cuido.
Ela, Lu(z), que me cuidou quando entrei lá. Eu fiquei anos querendo estar lá. Eu nem sabia como respirar direito naquele lugar. Eu estava aflita, suando, com roupa pensada há dias. Eu queria estar lá, mas também queria fugir. Depois de dois anos depressivos e cheios de pânico, eu estava lá. Chegava a doer tanta alegria e tanto...medo. Ela veio, me achou ali perdidinha, me achou ali toda sorrisos disfarçados, me achou comendo sem parar para conseguir estar lá. Ela me achou e veio me dar um abraço, um sorriso e me acolheu. Ficou ao meu lado conversando comigo e me tirando daquele sufoco que é (para mim) estar num lugar novo. Lu(z) me cuidou. E eu sou grata. Para sempre. Um ano depois, na mesma reunião, ela não estava lá. Eu já conhecia todo mundo, mas queria ela. Porque eu gostava de estar perto dela. E ela gostava de estar perto de mim. A gente babava juntas nas nossas crias. A gente falava de um monte de coisa e falava um monte. Ela dizia muito que estava cansada. A gente mostrava fotos. Ela não estava lá. Eu precisava chorar. Porque a vida passa...mas...assim...tão...rápido? me deixe reticências mais um pouco...ainda é tempo de chorar...
Na segunda feira, dançamos Caetano. A turma toda e Analu(z). Como era linda! linda! LINDA! Daquelas que a gente nem acredita que possa existir. Isso me chamou a atenção. Logo de cara vi que a menina linda, era uma...menina. Ela, uma das mais velhas da turma com 20 anos (!!!), veio me perguntar alguma coisa logo no começo do ano. Eu vi que ela era uma menina. E eu quis cuidar. Porque eu gosto de cuidar. Porque eu sou mãe. Porque eu vejo uma menina e eu quero dar colo. Porque eu quero que o mundo dê colo pra minha filha. Porque eu amo meus alunos de um jeito intenso. Porque é ali que exerço as coisas em que acredito. Porque é com eles que abrimos/cavamos/forçamos espaços poéticos. Analu(z) estava lá. Na outra aula não estava mais. A poesia caiu. Veio a vida. A vida é breve, a arte é eterna. Mas a arte ficou pequena diante da morte de Analu(z). A vida impôs a sua importância. Mesmo sendo grãos de areia. Sendo frágeis. Sendo efêmeros. Me...deixa...chorar...mais...Analu(z) não dança mais Caetano. Preciso ainda ser reticência...
Lu(z) veio num sonho lindo. Ela estava sentada numa mesa na garagem do meu prédio. Eu a vi e corri para abraça-la. Ela era mesmo. (Porque, às vezes, acho que a vejo por aí...). Ela disse que estava ali porque era perto da Usp. E ela estava com saudades. Ela lembrou que eu morava ali e foi falar um oi. A roupa dela ficava mudando. Eram lindas. Ela disse "aqui é assim." Ela falou dos filhos, do marido. Disse que estava com saudades, mas que estava tudo bem com eles. Ela sorria. Foi um sonho bom. Eu sabia que estava sonhando e tentava fazer com que não acordasse. Num canto da mesa, meu marido conversava com outra pessoa e eu tentava chamar sua atenção: "Daves, a Lu. A Lu tá aqui." mas ele não a viu. Eu continuei conversando com ela. Estou fazendo uma força enorme para lembrar o que. Não consigo. Lembro dela dizer que estava com saudades. Que estava bem. Que as roupas ficavam mudando mesmo. Lembro de passar a mão no braço dela e não ter mais a cicatriz. Lembro de rirmos do último dia em que nos encontramos. Quando ela tinha reunião comigo. Ela disse que estava cansada, que queria dormir e que queria ter tempo de passar um batom. Eu disse: "Vamos fingir que estamos em reunião e você passa um batom?". Ela topou, tirou o espelhinho da bolsa, dois batons pra misturar e passou. Ela disse que queria dormir. A gente não se viu mais. Foi o último dia dela no trabalho. Hoje sei que foi um presente essa reunião. Ficamos uma hora e meia falando sobre todos os alunos, cuidando deles. E ela cuidando também de mim. É muita gente pra cuidar. Mas, mesmo assim, no sonho, lembrando e rindo da história da reunião/batom ela disse: "Obrigada, querida."
As duas pontas, quem me cuida; quem eu cuido, viraram reticências.
Sem as pontas, sem os pontos, estou linha torta... frágil...e dançante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.