E ela acabou pensando na sua
morte. Seu caixão. Sua roupa. Seus dedos. Um terço? Não seria adequado um
terço. Um terço. Foi estranho pensar na ausência dela mesma ali naquele
endereço onde estaria seu corpo. Foi estranho pensar ausência com pernas olhos
mãos coração boca e ouvidos. Estranho pensar naquilo tudo imóvel. Parado.
Paradinha ela num lugar que não lhe diria mais respeito. O vento. O frio. O
calor. A mosca a lhe incomodar o nariz. As flores sem rinite. Os botões sem
incomodar as costas. Não foi um pensamento bom esse. Resolveu aumentar o
quadro. Os outros. Aquele que foi. Aquele que não foi. Aquele que chorou pouco.
Aquele que teve que ser medicado. Aquela que ficou o tempo todo. A outra que
não aguentou. Aquele que espirrou. Aquela que tomava guaraná zero. Todas
aquelas pequenas coisas sendo feitas ao redor dela. Aquela morta. Era estranho
pensar nisso, mas era impossível não estar no centro do pensamento a própria
face fria. Que coisa chata que deve ser morrer. E que demore. Ela levantou num
solavanco. Era tarde e o pensamento da morte fez com que ela precisasse de um
vinho branco. O gole foi longo. Um choro. Outro gole. Água. Uma entra outra sai.
A ideia do corpo seco voltou a atormentar. O vinho seco corpo imóvel vida um
gole longo que acaba. Voltou ao cenário. Aumentou ainda mais o quadro. Lá fora,
na rua do velório, um cachorro passou isento ingênuo de seu inevitável fim. Um
gole mais curto o do cachorro mas ele passeia como se não fosse. Ficou a inveja
do cachorro amarelo que passeava na rua do velório imaginado. Uma árvore que
balança. Um dois três carros. O jornal da noite grita num bar de esquina. Ela
volta para a imagem dela deitada. Seria bom levantar e tomar um pingado. Ela
fica feliz por poder tomar um pingado, mas deixa pra daqui a pouco. Ainda tenho
tempo, pensa no travesseiro. O velório volta. Ela aumenta mais o quadro. De
cima tudo sempre me pareceu um tecido estampado, ela pensa. É pra lá que leva
seu velório imaginado. Olhando lá de cima nem viu o corpo nem o terço nem os botões
nem o cachorro nem a fumaça do pingado. O tecido estampado cobre tudo. Eu
disse, Suzana, que a vida não tem sentido! Pensou. Volta quietinha pro travesseiro.
Vez em quando volta a morta. Ela morta volta. Ela espanta num tremelique. Amanhã
e tremelique são coisas de gente viva.
As Julietas e o Prozac
Mulher em meio ao caos
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
Sr. O.
Sr. O., gostaria de dizer ao
senhor que seria bom para o senhor que fôssemos todas explicáveis resumíveis
conceituáveis previsíveis. Quem te dera, Sr.O, que o senhor tivesse razão e
todas nós no fundo nos odiássemos e falássemos apenas sobre os senhores, detentores
de todas essas cadeiras giratórias. Esse mundo, Sr. O, não pode ser habitado em
paz por nós. Escolho o meu lado, afinal. Aqui o chão é terra e não tem parede
pintada. Bem que o senhor queria que fôssemos todas domesticadas aromatizadas
pasteurizadas depiladas vestidas conforme. Não somos, Sr. O. A vida nasce entre
pelos. Reconheça, Sr.O, que estamos em lados opostos da trincheira. Quem te
dera se tivéssemos sido todas anestesiadas cirurgicamente lavadas cortadas
precisadas de doutor e de clínica de doutor e de horário de doutor disponível.
Mas, Sr. O., nós experimentamos ser dona do nosso tempo nosso templo nossa
vertigem aborígene. E sabemos não em nossas mentes mas em nossas vísceras que
somos donas do mundo se assim quisermos. Não esse nosso, Sr. O. Esse é do
senhor. O senhor venceu. Fique com ele, aliás. Ignore que sua mãe é triste
mesmo que insista em colocar foto dela com papai sorrindo felicidade
entredentes. Ignore e tome esse mundo para o senhor. Ele não pode ser de nós
dois. Fique com ele. Não o quero. Quero aquele outro que está ali dobrando a
esquina dessa rua que não acaba nunca mas eu não vou parar de andar. E mesmo
quem não anda, Sr. O, mesmo aquela que ficou parada sente naquele fundinho de
canto de entranha de alma de muco de música ancestral que tem alguma coisa que
precisa virar no avesso pra gente poder existir aqui. Nós não somos adaptáveis.
Nós estamos tristes, Sr. O, nesse mundo cheio de geometria sem círculo de
palavra sem eco de coisa caída no chão coisa morta que alguém atropelou e levou
para passear com coleira. Nós estamos escolhendo, Sr. O. Escolho experimentar
um raciocínio com lógicas de frio na espinha e suspiro de vento quente no
estômago e choro que vem quietinho não porque sou mulher de Vinícius e sou
linda chorando baixinho mas porque o desespero está escondido e vem gritar de
noite. Como bruxaria. Como forças ocultas. O escuro é silêncio dessas coisas de
você, Sr. O. Sua luz branca me atrasa os pensamentos de desespero. Eu não quero
dormir para poder ter mais tempo com isso que está para acontecer a qualquer
momento mas não acontece nunca. Esse mundo, Sr. O, não pode ser bom para o
senhor e para mim ao mesmo tempo. Ele não pode. Eu quero que ele acabe.
PS.: sua mãe está infeliz.
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Quem me cuidou; quem eu cuidei.
É dia de escrever. Porque sonhei. Porque ontem fez dois meses de uma e uma semana da outra. Porque está muito difícil.
Sigamos. Vamos em frente. É a vida. Dessa para melhor.
Pontos finais para fora. Eu reticências dentro.
Porque dói. Porque dá saudades. Porque me dá vazio. Porque eu me encho de incertezas. Porque aparece o medo.
Os dois maiores medos: perder quem me cuida; perder quem eu cuido.
Ela, Lu(z), que me cuidou quando entrei lá. Eu fiquei anos querendo estar lá. Eu nem sabia como respirar direito naquele lugar. Eu estava aflita, suando, com roupa pensada há dias. Eu queria estar lá, mas também queria fugir. Depois de dois anos depressivos e cheios de pânico, eu estava lá. Chegava a doer tanta alegria e tanto...medo. Ela veio, me achou ali perdidinha, me achou ali toda sorrisos disfarçados, me achou comendo sem parar para conseguir estar lá. Ela me achou e veio me dar um abraço, um sorriso e me acolheu. Ficou ao meu lado conversando comigo e me tirando daquele sufoco que é (para mim) estar num lugar novo. Lu(z) me cuidou. E eu sou grata. Para sempre. Um ano depois, na mesma reunião, ela não estava lá. Eu já conhecia todo mundo, mas queria ela. Porque eu gostava de estar perto dela. E ela gostava de estar perto de mim. A gente babava juntas nas nossas crias. A gente falava de um monte de coisa e falava um monte. Ela dizia muito que estava cansada. A gente mostrava fotos. Ela não estava lá. Eu precisava chorar. Porque a vida passa...mas...assim...tão...rápido? me deixe reticências mais um pouco...ainda é tempo de chorar...
Na segunda feira, dançamos Caetano. A turma toda e Analu(z). Como era linda! linda! LINDA! Daquelas que a gente nem acredita que possa existir. Isso me chamou a atenção. Logo de cara vi que a menina linda, era uma...menina. Ela, uma das mais velhas da turma com 20 anos (!!!), veio me perguntar alguma coisa logo no começo do ano. Eu vi que ela era uma menina. E eu quis cuidar. Porque eu gosto de cuidar. Porque eu sou mãe. Porque eu vejo uma menina e eu quero dar colo. Porque eu quero que o mundo dê colo pra minha filha. Porque eu amo meus alunos de um jeito intenso. Porque é ali que exerço as coisas em que acredito. Porque é com eles que abrimos/cavamos/forçamos espaços poéticos. Analu(z) estava lá. Na outra aula não estava mais. A poesia caiu. Veio a vida. A vida é breve, a arte é eterna. Mas a arte ficou pequena diante da morte de Analu(z). A vida impôs a sua importância. Mesmo sendo grãos de areia. Sendo frágeis. Sendo efêmeros. Me...deixa...chorar...mais...Analu(z) não dança mais Caetano. Preciso ainda ser reticência...
Lu(z) veio num sonho lindo. Ela estava sentada numa mesa na garagem do meu prédio. Eu a vi e corri para abraça-la. Ela era mesmo. (Porque, às vezes, acho que a vejo por aí...). Ela disse que estava ali porque era perto da Usp. E ela estava com saudades. Ela lembrou que eu morava ali e foi falar um oi. A roupa dela ficava mudando. Eram lindas. Ela disse "aqui é assim." Ela falou dos filhos, do marido. Disse que estava com saudades, mas que estava tudo bem com eles. Ela sorria. Foi um sonho bom. Eu sabia que estava sonhando e tentava fazer com que não acordasse. Num canto da mesa, meu marido conversava com outra pessoa e eu tentava chamar sua atenção: "Daves, a Lu. A Lu tá aqui." mas ele não a viu. Eu continuei conversando com ela. Estou fazendo uma força enorme para lembrar o que. Não consigo. Lembro dela dizer que estava com saudades. Que estava bem. Que as roupas ficavam mudando mesmo. Lembro de passar a mão no braço dela e não ter mais a cicatriz. Lembro de rirmos do último dia em que nos encontramos. Quando ela tinha reunião comigo. Ela disse que estava cansada, que queria dormir e que queria ter tempo de passar um batom. Eu disse: "Vamos fingir que estamos em reunião e você passa um batom?". Ela topou, tirou o espelhinho da bolsa, dois batons pra misturar e passou. Ela disse que queria dormir. A gente não se viu mais. Foi o último dia dela no trabalho. Hoje sei que foi um presente essa reunião. Ficamos uma hora e meia falando sobre todos os alunos, cuidando deles. E ela cuidando também de mim. É muita gente pra cuidar. Mas, mesmo assim, no sonho, lembrando e rindo da história da reunião/batom ela disse: "Obrigada, querida."
As duas pontas, quem me cuida; quem eu cuido, viraram reticências.
Sem as pontas, sem os pontos, estou linha torta... frágil...e dançante.
Sigamos. Vamos em frente. É a vida. Dessa para melhor.
Pontos finais para fora. Eu reticências dentro.
Porque dói. Porque dá saudades. Porque me dá vazio. Porque eu me encho de incertezas. Porque aparece o medo.
Os dois maiores medos: perder quem me cuida; perder quem eu cuido.
Ela, Lu(z), que me cuidou quando entrei lá. Eu fiquei anos querendo estar lá. Eu nem sabia como respirar direito naquele lugar. Eu estava aflita, suando, com roupa pensada há dias. Eu queria estar lá, mas também queria fugir. Depois de dois anos depressivos e cheios de pânico, eu estava lá. Chegava a doer tanta alegria e tanto...medo. Ela veio, me achou ali perdidinha, me achou ali toda sorrisos disfarçados, me achou comendo sem parar para conseguir estar lá. Ela me achou e veio me dar um abraço, um sorriso e me acolheu. Ficou ao meu lado conversando comigo e me tirando daquele sufoco que é (para mim) estar num lugar novo. Lu(z) me cuidou. E eu sou grata. Para sempre. Um ano depois, na mesma reunião, ela não estava lá. Eu já conhecia todo mundo, mas queria ela. Porque eu gostava de estar perto dela. E ela gostava de estar perto de mim. A gente babava juntas nas nossas crias. A gente falava de um monte de coisa e falava um monte. Ela dizia muito que estava cansada. A gente mostrava fotos. Ela não estava lá. Eu precisava chorar. Porque a vida passa...mas...assim...tão...rápido? me deixe reticências mais um pouco...ainda é tempo de chorar...
Na segunda feira, dançamos Caetano. A turma toda e Analu(z). Como era linda! linda! LINDA! Daquelas que a gente nem acredita que possa existir. Isso me chamou a atenção. Logo de cara vi que a menina linda, era uma...menina. Ela, uma das mais velhas da turma com 20 anos (!!!), veio me perguntar alguma coisa logo no começo do ano. Eu vi que ela era uma menina. E eu quis cuidar. Porque eu gosto de cuidar. Porque eu sou mãe. Porque eu vejo uma menina e eu quero dar colo. Porque eu quero que o mundo dê colo pra minha filha. Porque eu amo meus alunos de um jeito intenso. Porque é ali que exerço as coisas em que acredito. Porque é com eles que abrimos/cavamos/forçamos espaços poéticos. Analu(z) estava lá. Na outra aula não estava mais. A poesia caiu. Veio a vida. A vida é breve, a arte é eterna. Mas a arte ficou pequena diante da morte de Analu(z). A vida impôs a sua importância. Mesmo sendo grãos de areia. Sendo frágeis. Sendo efêmeros. Me...deixa...chorar...mais...Analu(z) não dança mais Caetano. Preciso ainda ser reticência...
Lu(z) veio num sonho lindo. Ela estava sentada numa mesa na garagem do meu prédio. Eu a vi e corri para abraça-la. Ela era mesmo. (Porque, às vezes, acho que a vejo por aí...). Ela disse que estava ali porque era perto da Usp. E ela estava com saudades. Ela lembrou que eu morava ali e foi falar um oi. A roupa dela ficava mudando. Eram lindas. Ela disse "aqui é assim." Ela falou dos filhos, do marido. Disse que estava com saudades, mas que estava tudo bem com eles. Ela sorria. Foi um sonho bom. Eu sabia que estava sonhando e tentava fazer com que não acordasse. Num canto da mesa, meu marido conversava com outra pessoa e eu tentava chamar sua atenção: "Daves, a Lu. A Lu tá aqui." mas ele não a viu. Eu continuei conversando com ela. Estou fazendo uma força enorme para lembrar o que. Não consigo. Lembro dela dizer que estava com saudades. Que estava bem. Que as roupas ficavam mudando mesmo. Lembro de passar a mão no braço dela e não ter mais a cicatriz. Lembro de rirmos do último dia em que nos encontramos. Quando ela tinha reunião comigo. Ela disse que estava cansada, que queria dormir e que queria ter tempo de passar um batom. Eu disse: "Vamos fingir que estamos em reunião e você passa um batom?". Ela topou, tirou o espelhinho da bolsa, dois batons pra misturar e passou. Ela disse que queria dormir. A gente não se viu mais. Foi o último dia dela no trabalho. Hoje sei que foi um presente essa reunião. Ficamos uma hora e meia falando sobre todos os alunos, cuidando deles. E ela cuidando também de mim. É muita gente pra cuidar. Mas, mesmo assim, no sonho, lembrando e rindo da história da reunião/batom ela disse: "Obrigada, querida."
As duas pontas, quem me cuida; quem eu cuido, viraram reticências.
Sem as pontas, sem os pontos, estou linha torta... frágil...e dançante.
domingo, 15 de março de 2015
19-01-15: Carta para Elis
Uma carta que nunca será lida.
Elis, hoje completam 33 anos de sua morte. Elis, esse ano faço 33 anos.
Não nos cruzamos por aí. Não fui a um show seu e nunca vi um álbum ser lançado.
E isso me maltratou por muito tempo. Essa tristeza de ter que conviver com um desencontro temporal tão difícil pra mim.
Você me deu a resposta: "não te maltrates, nem tente voltar o que não tem mais vez." Vento de maio.
Aí eu comecei uma devoção. Muitas vezes louca, confesso. Muitas vezes quis ser você. Isso é bem forte. A gente querer, de verdade, ser outra pessoa.
Aí eu descobri que sou você. Eu e milhões de outros. Outros que são/somos você. E você continua se multiplicando por aí. Vento de maio: minha filha nasceu nesse mês lindo. Ela tem seis anos e já estou deixando minha pequena um pouco você. Por que é preciso que todo mundo te deixe aqui mais um pouco. te deixe cantando em palcos virtuais, em memórias, reais e inventadas.
Inventei sua vida em mim. Te invento viva a cada dia. Te invento cantante e sorridente. te invento teatro, oficina, te invento tema de personagem, trilha sonora de amor e dor, te invento enquanto redescubro a sua arte.
Choro de vez em quando, porque, entre outras coisas, queria que você pudesse ler essa carta.
Choro quando vejo sua filha falando sobre você. Ela é tão linda. E cantou suas músicas com sua neta na barriga. Poxa, Elis, imagina só, que barato! Imagina o tanto que você ia chorar.
Mas nós/você, choramos. E ficamos eternizando seu canto. E suas lágrimas e seu sorriso. Ficamos emprestando para você a nossa vida.
Quem grita vive contigo.
Mas fica na gente esse sentimento estranho de ter perdido alguém da família. Eu não sei...é estranho...
Vejo seus filhos e quero abraçá-los. Acho que é porque sou um pouco você.
Vejo seus filhos e fico me sentindo meio bobinha. Porque a tristeza de não ter colo de mãe é, para mim, a maior de todas.
(depois do meu vento de maio...)
(depois do meu vento de maio...)
Mas acho que estamos ajudando seus filhos a chorar.
Porque somos um pouco você.
Com amor,
Liana Ferraz
(Para ler ouvindo:Vento de Maio)
sexta-feira, 25 de julho de 2014
É um homem, senhor.
Se aquela mulher bater no meu carro, eu mato ela!
Disse o fulano nervoso pegando bolo.
Duas atendentes, eu e minha filha.
Olhei para o carro que estava manobrando e passando perto do carro daquele senhor.
Não era mulher. Era homem. Era, nitidamente, um homem.
Não é uma mulher. É um homem, senhor. - eu disse.
Hã?- ele respondeu.
Um homem que estava dirigindo o carro e não uma mulher. - tentei de novo.
Ah! - ele disse
A atendente do bolo resmunga alto "cada coisa que a gente tem que aguentar, né?"
A outra me dá uma piscada e um sorriso.
Me sinto feliz por não ter me calado.
Para que não continue essa velharia de achar as coisas que não são. Para que os velhos se renovem também. Todos esses velhos conceitos que são inocentes e pequenos quando se está do lado de quem acusa. Todos esses ingênuos momentos que nos deixam menores, que nos diminuem, malditos!, silêncio, respeito, não assobie, não difame, renove. É um turbilhão de raiva em mim...
Que exagero reclamar disso - dizem com frequência.
É uma bobagem, certo?
Uma coisa pequena. uma coisica de nada que me faz mais presa em casa, menos capaz de dirigir, menos potente como ser capaz de tomar uma decisão de ir ou ficar. Cercada com medo de bater o carro do outro, do outro que me olha, me assedia, me vê como incapaz de defesa. Que me acusa na figura daquele homem que, quase batendo no carro do outro, vira uma mulher. Qualquer mulher. Então, por que não eu? Foi comigo que ele falou e...é um turbilhão de raiva em mim...
Não é pequeno.
Nessas pequenas coisas mora uma busca pela liberdade de dirigir.
Nessas pequenas coisas mora uma necessidade masculina de que fiquemos em casa, quietas, sem pegar estrada. Com medo de bater ou arranhar ou ser arranhada ou furar pneu ou encontrar com senhores que matam mulheres imaginárias no estacionamento da casa de bolos.
(aos meus homens queridos, perdão pela fúria. estou certa de que sou compreendida por vocês)
Disse o fulano nervoso pegando bolo.
Duas atendentes, eu e minha filha.
Olhei para o carro que estava manobrando e passando perto do carro daquele senhor.
Não era mulher. Era homem. Era, nitidamente, um homem.
Não é uma mulher. É um homem, senhor. - eu disse.
Hã?- ele respondeu.
Um homem que estava dirigindo o carro e não uma mulher. - tentei de novo.
Ah! - ele disse
A atendente do bolo resmunga alto "cada coisa que a gente tem que aguentar, né?"
A outra me dá uma piscada e um sorriso.
Me sinto feliz por não ter me calado.
Para que não continue essa velharia de achar as coisas que não são. Para que os velhos se renovem também. Todos esses velhos conceitos que são inocentes e pequenos quando se está do lado de quem acusa. Todos esses ingênuos momentos que nos deixam menores, que nos diminuem, malditos!, silêncio, respeito, não assobie, não difame, renove. É um turbilhão de raiva em mim...
Que exagero reclamar disso - dizem com frequência.
É uma bobagem, certo?
Uma coisa pequena. uma coisica de nada que me faz mais presa em casa, menos capaz de dirigir, menos potente como ser capaz de tomar uma decisão de ir ou ficar. Cercada com medo de bater o carro do outro, do outro que me olha, me assedia, me vê como incapaz de defesa. Que me acusa na figura daquele homem que, quase batendo no carro do outro, vira uma mulher. Qualquer mulher. Então, por que não eu? Foi comigo que ele falou e...é um turbilhão de raiva em mim...
Não é pequeno.
Nessas pequenas coisas mora uma busca pela liberdade de dirigir.
Nessas pequenas coisas mora uma necessidade masculina de que fiquemos em casa, quietas, sem pegar estrada. Com medo de bater ou arranhar ou ser arranhada ou furar pneu ou encontrar com senhores que matam mulheres imaginárias no estacionamento da casa de bolos.
(aos meus homens queridos, perdão pela fúria. estou certa de que sou compreendida por vocês)
domingo, 4 de agosto de 2013
VIDA NÚMERO 4: Maristela tem uma amiga
(Sentada no sofá de
Maristela está Mariana. Ela olha um álbum muito grosso. Maristela entra.)
Maristela: Mari.
Mariana: Oi, amor.
Maristela: O que você tá
fazendo com isso na mão?
Mariana: Eu achei.
Maristela: Onde? Você
tirou de onde?
Mariana: Do seu
esconderijo. Te conheço há muito tempo, Mari.
Maristela: Você não
podia...
Mariana: Não vou sair
daqui sem a gente conversar sobre isso.
Maristela: Não tenho nada
a dizer. Se não me entendeu depois de ver isso, desista de mim.
Mariana: Nunca.
Maristela: Quer um café?
Mariana: Quero.
Maristela: Acho que
preciso de um uísque.
Mariana: Toma só um café,
Mari. Vamos conversar.
Maristela: Como você
entrou?
Mariana: Peguei a chave
com seu irmão. Ele me ligou.
Maristela: Aquele merda.
Mariana: Não fala assim.
Maristela: Faz três meses
que ele não me liga.
Mariana: Ele estava
doente.
Maristela preocupada: O
que ele tinha?
Mariana: Depressão.
Maristela irritada: Então
ele que vá tomar no cu!
Mariana: Mari, nunca te vi
assim.
Maristela: Mudei.
Mariana: Tanto faz pra
mim.
Maristela: Vou fazer o
café.
(Maristela sai. Mariana
continua folheando o álbum. Maristela
fala com ela do outro cômodo. Mariana começa a chorar vendo o álbum.)
Maristela: Mari, desculpe,
viu? Estou feliz que você veio. No final das contas, eu só tenho você.
Mariana: Eu sempre estarei
aqui.
Maristela: Você gosta de
café bem forte ou pode ser chafé?
Mariana disfarça as
lágrimas: Pode ser do jeito que você gosta, meu amor. Tanto faz.
Maristela: Açúcar ou
adoçante?
(Silêncio. Mariana chora.)
Maristela: Açúcar ou
adoçante, Mari?
(Silêncio. Mariana chora.)
Maristela: Vou levar os
dois. Você dormiu aí?
Mariana recomposta: Quase.
Maristela ainda do outro
cômodo: Mari, você tá lembrando que hoje faz 18 anos que nossas mães morreram?
Aquelas vacas!
Mariana: Cala a boca,
Maristela!
Maristela chega com o
café: Vacas mesmo! Você está chorando.
Mariana: Já parei.
Maristela: O que
aconteceu, Mari?
Mariana: O que aconteceu,
Maristela? O que aconteceu? Você que saber...
Maristela: Você me chamou
de Maristela duas vezes. Me chame de Mari.
Mariana: Mari 1.
Maristela ri: Sim, Mari 2?
Mariana ri: Como a gente
era ridícula!
Maristela ri: Como a gente
era feliz...
Mariana: Não odeie nossas
mães. Elas estavam tentando de novo. Ser feliz, sabe?
Maristela: Não. Não sei
mais...
Mariana: Como pudemos não
perceber que elas estavam desesperadas? Mari, elas estavam bem aqui...Elas
estavam aqui e nós as deixamos partir.
Maristela: Elas pularam,
Mari. Elas que pularam e nos deixaram aqui. Com quantos anos? 12! 12 anos,
Mari!
Mariana: Hoje eu entendo.
Maristela: Eu não. Elas
tinham a gente. Não podiam...Eu entendo com a mãe dos outros, mas com a minha não
dá...
Mariana: Você se incomoda
mais com o namoro ou com elas...
(Mariana para de falar.
Não consegue.)
Maristela: Com elas
pularem? Fala, Mari! Por isso, que eu digo, aquelas vacas!
Mariana: Cala a boca!
Maristela: Cala a boca
você! Fica aí chorando a morte de duas pessoas que nunca nos amaram. Elas
pularam de um prédio e nós vimos! Nós duas! Você lembra quando nossos pais acharam
as cartas? As duas estavam...E você fica aí achando que elas tinham razão! E
vem aqui me dizer que eu estou errada por chamar as duas de vacas! Vacas!
Vacas!
Mariana: Mari, você pode
falar o que quiser. Eu não vou desistir de você. Eu vim aqui pra te ver.
Maristela: Minha mãe se
jogou de um prédio. Ela fez um rabo de cavalo em mim, passou perfume na minha
roupa, me deu um beijo e pulou. E a gente feliz por que sua mãe tinha vindo passar
a tarde com a minha e a gente podia conversar sobre aquele menino. Quem era
aquele menino que a gente gostava as duas? Eu não sei...Mas elas pularam na
nossa frente. Eu nunca mais prendi o cabelo. Lembro daquele rabo de cavalo me
puxando o cabelo, lembro dessa dor enquanto via minha mãe pular.
Mariana: Mari, elas
estavam sozinhas.
Maristela: Nós estávamos
lá.
Mariana: Nós não podemos
curar toda a solidão das nossas mães. Nós não temos esse poder, Mari. Existe
uma solidão de mãe que filho nenhum cura. Elas estavam tentando. Mas não
conseguiram.
Maristela: Eu sei.
Mariana: Você está
tentando também?
Maristela: Não sei.
Mariana: Está tentando ser
feliz, Mari?
Maristela: Acho que sim,
mas ainda não sei.
Mariana: Você é a mulher
mais linda que já vi na vida.
Maristela: Isso é uma
mentira.
Mariana: Não é. Você é
linda. Sempre foi. Lembra daquele menino que você falou? Ele se chama
Guilherme. Eu sei bem, por que era pra mim que ele não olhava. Aí fica mais
difícil de esquecer. Você sempre foi a Mari 1
e eu a Mari 2. Você é linda. Mesmo agora que faz toda a força para não
ser. Linda!
Maristela: E o que
aconteceu comigo, Mari? Com toda essa beleza que você diz? Eu era engraçada e
estava sempre cheia de gente perto de mim. E o que aconteceu comigo, Mari? Eu
estou definhando nesse apartamento. Aqui não tem nada de lindo em mim. Eu não
tenho pra onde ir e eu nem sei quando isso começou. Talvez naquele dia das
nossas mães, talvez depois, com meu pai...Eu já nem sei, por que a vida tem
sido isso pra mim: uma sequência de más notícias.
Mariana: Se eu te levar
num médico, você vai?
Maristela: Vou.
Mariana: Vou procurar um
amanhã. Hoje vou sair correndo daqui e resolver muitas coisas. Você sabe, né?
Maristela: Sei.
Mariana: Mas eu vou
procurar um médico pra você. Vou te levar num médico e ele vai te dar remédios.
Você vai ter que tomar.
Maristela: Ok.
Mariana: Levanta sua
blusa.
Maristela: Não.
Mariana: Levanta, Mari. Eu
quero ver. Não tenha medo. Eu não vou te repreender. Eu só quero ver se está
infeccionando ou algo assim.
(Maristela levanta a blusa
e sua barriga está cheia de cortes. Alguns cicatrizados e outros ainda
vermelhos. Maristela chora ao mostrar para a amiga.)
Maristela: Desculpa, Mari.
Mariana: Não tem problema,
meu amor. Por que você voltou a fazer isso?
Maristela: Nunca parei.
Mariana: E por que
fotografar, Mari?
Maristela: Não sei...Me
faz bem...
(Mariana folheia o álbum.
Lá fotos de partes de Maristela cortadas e queimadas. Cada foto tem uma data e
ao lado uma figura de algo que Maristela não tem. Ao lado da foto da barriga
cortada, a foto de um bebê. A cada foto de corte da barriga, um bebê ao lado.)
Maristela: É que me deu
vontade de ser mãe...
Mariana: Só está se
cortando na barriga?
Maristela: Só. Eu juro!
(Mariana vê outras fotos,
mais antigas. Maristela com pequenos cortes no pescoço, escondidos pelo cabelo
sempre solto. Ao lado, fotos de mulheres com cabelo preso. Maristela com
queimaduras de cigarro na lombar e ao
lado fotos de atrizes famosas fumando.)
Maristela como quem mostra
um álbum de fotos de uma viagem: Essa aqui é de quando eu queria fazer um
penteado bonito, mas não conseguia. Essa outra foi quando eu quis fumar, mas
sei que faz mal. Não fumo, não! Nenhum trago! Essa outra é de quando eu estava
namorando e não tinha onde me cortar. Eu cortava aqui, no meio dos dedos.
Fiquei sem usar sandálias. Aí eu colei estas aqui. São lindas estas sandálias.
(Mariana olha pra ela,
desolada.)
Maristela: Esse aqui é
engraçado! Vi esse casal na rua! Eles estavam fazendo carinhos no metrô.
Lindos! Lindos! Nunca ninguém me fez carinho no metrô...Bom, mas aí eu tirei
essa foto deles e fiz várias versões no computador. Fiz uns cortinhos pequenos
perto do coração. Aqui. Tá vendo?
(Maristela parece perder
de vez a sanidade.)
Maristela rindo: Ah! Mari!
É cada história que tem aqui! No fundo foi bom você ter achado esse álbum. Ele
é lindo! Olha essa aqui! É de ontem. Usei um estilete bem fininho. Cortei um
pedacinho bem pequeno da minha barriga. Sangrou muito. Aí eu passei a mão.
Fiquei com as duas mãos cheias de sangue. Passei no rosto. Aí eu pus uma música
e dancei pelada, cheia de sangue! (ri) Fiquei assim pela casa! Acredita? Aí eu
achei essa foto desse nenê recém-nascido. Cheio de sangue também! Achei isso
tão lindo, Mari! Tão lindo! Era eu renascendo! Nascendo cheia de sangue e
dançando pelada! Como quando a gente nasce, sabe? E isso foi ontem! E adivinha
o que aconteceu hoje? Adivinha! Uma coisa maravilhosa!
Mariana está chorando:
Sério, Mari? Que ótimo! O que foi que aconteceu?
Maristela: Ué, Mari! Você!
Você veio me ver!
Mariana: Eu viria de
qualquer jeito. Não precisava ter feito isso.
Maristela: Isso é uma
coisa que a gente não sabe, Mari! Talvez você tivesse vindo, talvez não. Mas
estou feliz que você está aqui.
Mariana: Eu volto
amanhã pra te levar no médico.
Maristela: Mas eu já estou
bem melhor. Acho que não precisa.
Mariana: Se cuida, meu
amor. Eu venho te pegar amanhã.
Maristela: Por favor,
volte.
Mariana: Sim.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
VIDA NÚMERO 2: Maristela, suas casas e seus cheiros.
Sabe uma coisa que eu não me conformo? A gente ser
todo mundo igual. A gente ter dois olhos e um nariz e uma boca, enfim, ter
essas coisas básicas da carcaça. Isso me leva a crer que, no fim, ninguém é
nada mesmo. Não importa, sabe? Eu acho que
seria justíssimo algumas pessoas terem três olhos ou duas bocas. Acho que seria
justíssimo mesmo. Mas isso não importa
também.
Maristela criança tinha dessas coisas de pensar absurdos. A mãe e o pai
nem ligavam, mas tinha um tio que ela só via no Natal, que achava a menina
genial. Ele gritava, cuspindo no peru: “Vocês ouviram o que disse a menina? Ela
é genial! Genial!” Mas o tal tio morreu. E nunca mais se falou em genialidade
para Maristela. Todos a achavam comum.
Menos ela mesma, obviamente, que se achava um gênio incompreendido. Ah!
Se algum dia me descobrem por aí! Olhava-se no espelho todos os dias
longamente, desde criança. Maristela, menininha bonita, foi ficando linda. E de
tanto ser linda, um dia ficou feia e não teve quem a fizesse voltar a ser linda
de novo. Toda sua casa é um remendo. Maristela, sempre pobre, ganhando uma
miséria, foi ganhando sofá da tia, geladeira da avó, armário velho do tio,
sapato apertado da prima e foi construindo seu palácio. Maristela não tinha
forças para mudar em nada sua casa. Não tinha criatividade nem dinheiro, de
modo que toda possibilidade de renovação, logo vinha abaixo e Maristela
acumulava nas costas mais uma frustração. Mas se for descoberta e virar
cantora, aí mando decorar minha casa com decorador muito bom e vou me sentar
numa sala com sofá novo e televisão enorme. Meu banheiro vai ter uma
hidromassagem e meu closet... Mas por enquanto, eu me viro com isso aqui mesmo.
Quando sua mãe morreu, ficou aquela casa cheia de cheiro de mãe sem mãe dentro.
Ficaram as roupas da mãe, o sofá da mãe, os pratos da mãe também tinham cheiro
de mãe! E Maristela entrou naquela casa e nunca conseguiu chorar. Olhava pra
aquilo e queria botar fogo em tudo. Ficou olhando para tudo aquilo, com seu
incêndio imaginário, queimando os móveis com a mãe junto. Precisava queimar a
mãe junto. Minha mãe sempre soube me fazer bem e eu sempre achei que ela não
tinha o menor direito de morrer. Deixou
ali um cheiro insuportável de mãe e morreu! Eu acho que isso é falta de amor.
Se ela pudesse se ouvir, veria que estava começando ali a ficar completamente
louca, insana por julgar a mãe que nada fez a não ser exercer o seu direito
básico de morrer. Mas Maristela não ouvia nada. Só música. Trancava-se no
quarto, desde muito nova, e ouvia música muito alta. Se estava triste, ouvia
música triste para chorar e cortar os pulsos. Se estava feliz, ouvia a música
mais alegre do mundo e ficava quicando pelo quarto como uma criança eufórica.
Quando eu era feliz, eu era assim: tudo ou nada. Não conseguia ficar no meio do
caminho, em cima do muro, mas agora é tudo igual, tudo a mesma coisa e tanto
faz. Tanto faz. Já tive essa vontade louca de viver, mas passou. A não ser que
eu vire artista, a não ser que meu sonho se realize. Maristela era de uma
geração em que sonhos pareciam cair no colo dos escolhidos pelo destino. Ela
estava onde deveria estar: sentada, à espera do sonho caído. Não caiu. De tudo isso na minha casa, a coisa que mais
gosto é de uma toalhinha vermelha. Está furada a toalhinha da minha avó. Ela
tem cheiro de vovó, mas não é ruim como o cheiro da minha mãe. É bom. Minha avó
morreu só quando tinha que morrer, bem velhinha e com os cabelos prateados. Não
acho que minha avó teria morrido se pudesse evitar. Morreu porque não tinha
jeito. Mas minha mãe não e nem meu pai. Meu pai morreu depois e me deixou
sozinha com aquele moleque do meu irmão. Moleque. Com 13 anos, aquele moleque
de espinha na cara. Eu não sabia o que fazer com aquilo. Amo tanto meu irmão! E
tive que dar comida pra ele. Tive que aprender a fazer ovo e feijão. Odeio ovo
e feijão. E meu irmão saía peidando pela casa um peido fedorento que misturava
com o cheiro da mamãe que eu não queimei e misturava com o cheiro do meu pai
que tinha um cheiro forte de desodorante do comercial que traz um monte de
mulher mas nunca trouxe nenhuma. Eu deitava embaixo da cama com a toalhinha da
minha vó cobrindo minha cabeça. Deitava e ficava ali por horas. Se era domingo,
ela passava o dia inteiro ali com a toalhinha da vó na cabeça, se era dia útil,
ela passava a madrugada toda. A casa era limpa e Maristela trabalhava. Não
havia quem desconfiasse que ela tinha essas crises de gente louca. Ninguém
poderia dizer que aquela menina que já tinha sido linda, estava morrendo.
Maristela um dia vestiu uma camiseta branca onde estava escrito: “Socorro.
Estou morrendo.”. Ela mesma havia escrito, com letra vermelha. O irmão olhou
pra aquilo e riu até cair no chão. Ele não sabia que era sangue de Maristela e
que ela havia começado a se cortar bem fininho com uma agulha enferrujada. É
que teve um dia que veio uma colega vender creme hidratante pra mim. Ela trouxe
um monte. Eu fui experimentando. Até que eu passei um no braço. Era uma sexta
feira, fim de tarde, depois do trabalho. Senti aquele cheiro e meu corpo ficou
gelado. Eu comprei o hidratante e passei o final de semana todo passando o
creme no braço e cheirando. No primeiro dia, eu chorei. No segundo, sem ter
mais como chorar, eu senti vontade de enfiar uma agulha no meu braço. Enfiei uma
vez, duas e três, até que perdi a conta. Passei o creme e enfiei agulhas no meu
braço até que o creme ficou rosado do meu sangue. Aí eu deitei, fechei os olhos
e vi o bebê que eu fui embalado nos braços da minha mãe, vi a menina que era
passando a mão pequena nos braços dela, vi minha mãe olhando para mim, sorrindo
de leve, me amando suavemente, por pouco tempo, tão pouco. Vi minha mãe nua,
saída do banho, toalha branca na cabeça passando pelo corpo o hidratante que eu
agora estava usando. Maristela levantou-se num sobressalto, com os braços
ensanguentados e o cheiro de sangue e erva doce. Era a mãe que voltava com seu
cheiro de mãe. Maristela deixou-se dormir e chorar, mas pôs o despertador para
as sete horas da manhã da segunda-feira. E quanto ele tocou, Maristela lavou
seu corpo e foi trabalhar. Ninguém que cruzou com Maristela na rua naquele dia
poderia imaginar que aquela moça quase bonita, nem alta nem baixa, nem gorda
nem magra, quase uma moça bonita, mas nada demais, aquela moça comum, vestida
como todas, aquela moça com óculos de sol, que aquela moça lá, estava desesperada.
(uma das vidas da peça "As 7 vidas de Maristela")
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