Sabe uma coisa que eu não me conformo? A gente ser
todo mundo igual. A gente ter dois olhos e um nariz e uma boca, enfim, ter
essas coisas básicas da carcaça. Isso me leva a crer que, no fim, ninguém é
nada mesmo. Não importa, sabe? Eu acho que
seria justíssimo algumas pessoas terem três olhos ou duas bocas. Acho que seria
justíssimo mesmo. Mas isso não importa
também.
Maristela criança tinha dessas coisas de pensar absurdos. A mãe e o pai
nem ligavam, mas tinha um tio que ela só via no Natal, que achava a menina
genial. Ele gritava, cuspindo no peru: “Vocês ouviram o que disse a menina? Ela
é genial! Genial!” Mas o tal tio morreu. E nunca mais se falou em genialidade
para Maristela. Todos a achavam comum.
Menos ela mesma, obviamente, que se achava um gênio incompreendido. Ah!
Se algum dia me descobrem por aí! Olhava-se no espelho todos os dias
longamente, desde criança. Maristela, menininha bonita, foi ficando linda. E de
tanto ser linda, um dia ficou feia e não teve quem a fizesse voltar a ser linda
de novo. Toda sua casa é um remendo. Maristela, sempre pobre, ganhando uma
miséria, foi ganhando sofá da tia, geladeira da avó, armário velho do tio,
sapato apertado da prima e foi construindo seu palácio. Maristela não tinha
forças para mudar em nada sua casa. Não tinha criatividade nem dinheiro, de
modo que toda possibilidade de renovação, logo vinha abaixo e Maristela
acumulava nas costas mais uma frustração. Mas se for descoberta e virar
cantora, aí mando decorar minha casa com decorador muito bom e vou me sentar
numa sala com sofá novo e televisão enorme. Meu banheiro vai ter uma
hidromassagem e meu closet... Mas por enquanto, eu me viro com isso aqui mesmo.
Quando sua mãe morreu, ficou aquela casa cheia de cheiro de mãe sem mãe dentro.
Ficaram as roupas da mãe, o sofá da mãe, os pratos da mãe também tinham cheiro
de mãe! E Maristela entrou naquela casa e nunca conseguiu chorar. Olhava pra
aquilo e queria botar fogo em tudo. Ficou olhando para tudo aquilo, com seu
incêndio imaginário, queimando os móveis com a mãe junto. Precisava queimar a
mãe junto. Minha mãe sempre soube me fazer bem e eu sempre achei que ela não
tinha o menor direito de morrer. Deixou
ali um cheiro insuportável de mãe e morreu! Eu acho que isso é falta de amor.
Se ela pudesse se ouvir, veria que estava começando ali a ficar completamente
louca, insana por julgar a mãe que nada fez a não ser exercer o seu direito
básico de morrer. Mas Maristela não ouvia nada. Só música. Trancava-se no
quarto, desde muito nova, e ouvia música muito alta. Se estava triste, ouvia
música triste para chorar e cortar os pulsos. Se estava feliz, ouvia a música
mais alegre do mundo e ficava quicando pelo quarto como uma criança eufórica.
Quando eu era feliz, eu era assim: tudo ou nada. Não conseguia ficar no meio do
caminho, em cima do muro, mas agora é tudo igual, tudo a mesma coisa e tanto
faz. Tanto faz. Já tive essa vontade louca de viver, mas passou. A não ser que
eu vire artista, a não ser que meu sonho se realize. Maristela era de uma
geração em que sonhos pareciam cair no colo dos escolhidos pelo destino. Ela
estava onde deveria estar: sentada, à espera do sonho caído. Não caiu. De tudo isso na minha casa, a coisa que mais
gosto é de uma toalhinha vermelha. Está furada a toalhinha da minha avó. Ela
tem cheiro de vovó, mas não é ruim como o cheiro da minha mãe. É bom. Minha avó
morreu só quando tinha que morrer, bem velhinha e com os cabelos prateados. Não
acho que minha avó teria morrido se pudesse evitar. Morreu porque não tinha
jeito. Mas minha mãe não e nem meu pai. Meu pai morreu depois e me deixou
sozinha com aquele moleque do meu irmão. Moleque. Com 13 anos, aquele moleque
de espinha na cara. Eu não sabia o que fazer com aquilo. Amo tanto meu irmão! E
tive que dar comida pra ele. Tive que aprender a fazer ovo e feijão. Odeio ovo
e feijão. E meu irmão saía peidando pela casa um peido fedorento que misturava
com o cheiro da mamãe que eu não queimei e misturava com o cheiro do meu pai
que tinha um cheiro forte de desodorante do comercial que traz um monte de
mulher mas nunca trouxe nenhuma. Eu deitava embaixo da cama com a toalhinha da
minha vó cobrindo minha cabeça. Deitava e ficava ali por horas. Se era domingo,
ela passava o dia inteiro ali com a toalhinha da vó na cabeça, se era dia útil,
ela passava a madrugada toda. A casa era limpa e Maristela trabalhava. Não
havia quem desconfiasse que ela tinha essas crises de gente louca. Ninguém
poderia dizer que aquela menina que já tinha sido linda, estava morrendo.
Maristela um dia vestiu uma camiseta branca onde estava escrito: “Socorro.
Estou morrendo.”. Ela mesma havia escrito, com letra vermelha. O irmão olhou
pra aquilo e riu até cair no chão. Ele não sabia que era sangue de Maristela e
que ela havia começado a se cortar bem fininho com uma agulha enferrujada. É
que teve um dia que veio uma colega vender creme hidratante pra mim. Ela trouxe
um monte. Eu fui experimentando. Até que eu passei um no braço. Era uma sexta
feira, fim de tarde, depois do trabalho. Senti aquele cheiro e meu corpo ficou
gelado. Eu comprei o hidratante e passei o final de semana todo passando o
creme no braço e cheirando. No primeiro dia, eu chorei. No segundo, sem ter
mais como chorar, eu senti vontade de enfiar uma agulha no meu braço. Enfiei uma
vez, duas e três, até que perdi a conta. Passei o creme e enfiei agulhas no meu
braço até que o creme ficou rosado do meu sangue. Aí eu deitei, fechei os olhos
e vi o bebê que eu fui embalado nos braços da minha mãe, vi a menina que era
passando a mão pequena nos braços dela, vi minha mãe olhando para mim, sorrindo
de leve, me amando suavemente, por pouco tempo, tão pouco. Vi minha mãe nua,
saída do banho, toalha branca na cabeça passando pelo corpo o hidratante que eu
agora estava usando. Maristela levantou-se num sobressalto, com os braços
ensanguentados e o cheiro de sangue e erva doce. Era a mãe que voltava com seu
cheiro de mãe. Maristela deixou-se dormir e chorar, mas pôs o despertador para
as sete horas da manhã da segunda-feira. E quanto ele tocou, Maristela lavou
seu corpo e foi trabalhar. Ninguém que cruzou com Maristela na rua naquele dia
poderia imaginar que aquela moça quase bonita, nem alta nem baixa, nem gorda
nem magra, quase uma moça bonita, mas nada demais, aquela moça comum, vestida
como todas, aquela moça com óculos de sol, que aquela moça lá, estava desesperada.
(uma das vidas da peça "As 7 vidas de Maristela")