(Sentada no sofá de
Maristela está Mariana. Ela olha um álbum muito grosso. Maristela entra.)
Maristela: Mari.
Mariana: Oi, amor.
Maristela: O que você tá
fazendo com isso na mão?
Mariana: Eu achei.
Maristela: Onde? Você
tirou de onde?
Mariana: Do seu
esconderijo. Te conheço há muito tempo, Mari.
Maristela: Você não
podia...
Mariana: Não vou sair
daqui sem a gente conversar sobre isso.
Maristela: Não tenho nada
a dizer. Se não me entendeu depois de ver isso, desista de mim.
Mariana: Nunca.
Maristela: Quer um café?
Mariana: Quero.
Maristela: Acho que
preciso de um uísque.
Mariana: Toma só um café,
Mari. Vamos conversar.
Maristela: Como você
entrou?
Mariana: Peguei a chave
com seu irmão. Ele me ligou.
Maristela: Aquele merda.
Mariana: Não fala assim.
Maristela: Faz três meses
que ele não me liga.
Mariana: Ele estava
doente.
Maristela preocupada: O
que ele tinha?
Mariana: Depressão.
Maristela irritada: Então
ele que vá tomar no cu!
Mariana: Mari, nunca te vi
assim.
Maristela: Mudei.
Mariana: Tanto faz pra
mim.
Maristela: Vou fazer o
café.
(Maristela sai. Mariana
continua folheando o álbum. Maristela
fala com ela do outro cômodo. Mariana começa a chorar vendo o álbum.)
Maristela: Mari, desculpe,
viu? Estou feliz que você veio. No final das contas, eu só tenho você.
Mariana: Eu sempre estarei
aqui.
Maristela: Você gosta de
café bem forte ou pode ser chafé?
Mariana disfarça as
lágrimas: Pode ser do jeito que você gosta, meu amor. Tanto faz.
Maristela: Açúcar ou
adoçante?
(Silêncio. Mariana chora.)
Maristela: Açúcar ou
adoçante, Mari?
(Silêncio. Mariana chora.)
Maristela: Vou levar os
dois. Você dormiu aí?
Mariana recomposta: Quase.
Maristela ainda do outro
cômodo: Mari, você tá lembrando que hoje faz 18 anos que nossas mães morreram?
Aquelas vacas!
Mariana: Cala a boca,
Maristela!
Maristela chega com o
café: Vacas mesmo! Você está chorando.
Mariana: Já parei.
Maristela: O que
aconteceu, Mari?
Mariana: O que aconteceu,
Maristela? O que aconteceu? Você que saber...
Maristela: Você me chamou
de Maristela duas vezes. Me chame de Mari.
Mariana: Mari 1.
Maristela ri: Sim, Mari 2?
Mariana ri: Como a gente
era ridícula!
Maristela ri: Como a gente
era feliz...
Mariana: Não odeie nossas
mães. Elas estavam tentando de novo. Ser feliz, sabe?
Maristela: Não. Não sei
mais...
Mariana: Como pudemos não
perceber que elas estavam desesperadas? Mari, elas estavam bem aqui...Elas
estavam aqui e nós as deixamos partir.
Maristela: Elas pularam,
Mari. Elas que pularam e nos deixaram aqui. Com quantos anos? 12! 12 anos,
Mari!
Mariana: Hoje eu entendo.
Maristela: Eu não. Elas
tinham a gente. Não podiam...Eu entendo com a mãe dos outros, mas com a minha não
dá...
Mariana: Você se incomoda
mais com o namoro ou com elas...
(Mariana para de falar.
Não consegue.)
Maristela: Com elas
pularem? Fala, Mari! Por isso, que eu digo, aquelas vacas!
Mariana: Cala a boca!
Maristela: Cala a boca
você! Fica aí chorando a morte de duas pessoas que nunca nos amaram. Elas
pularam de um prédio e nós vimos! Nós duas! Você lembra quando nossos pais acharam
as cartas? As duas estavam...E você fica aí achando que elas tinham razão! E
vem aqui me dizer que eu estou errada por chamar as duas de vacas! Vacas!
Vacas!
Mariana: Mari, você pode
falar o que quiser. Eu não vou desistir de você. Eu vim aqui pra te ver.
Maristela: Minha mãe se
jogou de um prédio. Ela fez um rabo de cavalo em mim, passou perfume na minha
roupa, me deu um beijo e pulou. E a gente feliz por que sua mãe tinha vindo passar
a tarde com a minha e a gente podia conversar sobre aquele menino. Quem era
aquele menino que a gente gostava as duas? Eu não sei...Mas elas pularam na
nossa frente. Eu nunca mais prendi o cabelo. Lembro daquele rabo de cavalo me
puxando o cabelo, lembro dessa dor enquanto via minha mãe pular.
Mariana: Mari, elas
estavam sozinhas.
Maristela: Nós estávamos
lá.
Mariana: Nós não podemos
curar toda a solidão das nossas mães. Nós não temos esse poder, Mari. Existe
uma solidão de mãe que filho nenhum cura. Elas estavam tentando. Mas não
conseguiram.
Maristela: Eu sei.
Mariana: Você está
tentando também?
Maristela: Não sei.
Mariana: Está tentando ser
feliz, Mari?
Maristela: Acho que sim,
mas ainda não sei.
Mariana: Você é a mulher
mais linda que já vi na vida.
Maristela: Isso é uma
mentira.
Mariana: Não é. Você é
linda. Sempre foi. Lembra daquele menino que você falou? Ele se chama
Guilherme. Eu sei bem, por que era pra mim que ele não olhava. Aí fica mais
difícil de esquecer. Você sempre foi a Mari 1
e eu a Mari 2. Você é linda. Mesmo agora que faz toda a força para não
ser. Linda!
Maristela: E o que
aconteceu comigo, Mari? Com toda essa beleza que você diz? Eu era engraçada e
estava sempre cheia de gente perto de mim. E o que aconteceu comigo, Mari? Eu
estou definhando nesse apartamento. Aqui não tem nada de lindo em mim. Eu não
tenho pra onde ir e eu nem sei quando isso começou. Talvez naquele dia das
nossas mães, talvez depois, com meu pai...Eu já nem sei, por que a vida tem
sido isso pra mim: uma sequência de más notícias.
Mariana: Se eu te levar
num médico, você vai?
Maristela: Vou.
Mariana: Vou procurar um
amanhã. Hoje vou sair correndo daqui e resolver muitas coisas. Você sabe, né?
Maristela: Sei.
Mariana: Mas eu vou
procurar um médico pra você. Vou te levar num médico e ele vai te dar remédios.
Você vai ter que tomar.
Maristela: Ok.
Mariana: Levanta sua
blusa.
Maristela: Não.
Mariana: Levanta, Mari. Eu
quero ver. Não tenha medo. Eu não vou te repreender. Eu só quero ver se está
infeccionando ou algo assim.
(Maristela levanta a blusa
e sua barriga está cheia de cortes. Alguns cicatrizados e outros ainda
vermelhos. Maristela chora ao mostrar para a amiga.)
Maristela: Desculpa, Mari.
Mariana: Não tem problema,
meu amor. Por que você voltou a fazer isso?
Maristela: Nunca parei.
Mariana: E por que
fotografar, Mari?
Maristela: Não sei...Me
faz bem...
(Mariana folheia o álbum.
Lá fotos de partes de Maristela cortadas e queimadas. Cada foto tem uma data e
ao lado uma figura de algo que Maristela não tem. Ao lado da foto da barriga
cortada, a foto de um bebê. A cada foto de corte da barriga, um bebê ao lado.)
Maristela: É que me deu
vontade de ser mãe...
Mariana: Só está se
cortando na barriga?
Maristela: Só. Eu juro!
(Mariana vê outras fotos,
mais antigas. Maristela com pequenos cortes no pescoço, escondidos pelo cabelo
sempre solto. Ao lado, fotos de mulheres com cabelo preso. Maristela com
queimaduras de cigarro na lombar e ao
lado fotos de atrizes famosas fumando.)
Maristela como quem mostra
um álbum de fotos de uma viagem: Essa aqui é de quando eu queria fazer um
penteado bonito, mas não conseguia. Essa outra foi quando eu quis fumar, mas
sei que faz mal. Não fumo, não! Nenhum trago! Essa outra é de quando eu estava
namorando e não tinha onde me cortar. Eu cortava aqui, no meio dos dedos.
Fiquei sem usar sandálias. Aí eu colei estas aqui. São lindas estas sandálias.
(Mariana olha pra ela,
desolada.)
Maristela: Esse aqui é
engraçado! Vi esse casal na rua! Eles estavam fazendo carinhos no metrô.
Lindos! Lindos! Nunca ninguém me fez carinho no metrô...Bom, mas aí eu tirei
essa foto deles e fiz várias versões no computador. Fiz uns cortinhos pequenos
perto do coração. Aqui. Tá vendo?
(Maristela parece perder
de vez a sanidade.)
Maristela rindo: Ah! Mari!
É cada história que tem aqui! No fundo foi bom você ter achado esse álbum. Ele
é lindo! Olha essa aqui! É de ontem. Usei um estilete bem fininho. Cortei um
pedacinho bem pequeno da minha barriga. Sangrou muito. Aí eu passei a mão.
Fiquei com as duas mãos cheias de sangue. Passei no rosto. Aí eu pus uma música
e dancei pelada, cheia de sangue! (ri) Fiquei assim pela casa! Acredita? Aí eu
achei essa foto desse nenê recém-nascido. Cheio de sangue também! Achei isso
tão lindo, Mari! Tão lindo! Era eu renascendo! Nascendo cheia de sangue e
dançando pelada! Como quando a gente nasce, sabe? E isso foi ontem! E adivinha
o que aconteceu hoje? Adivinha! Uma coisa maravilhosa!
Mariana está chorando:
Sério, Mari? Que ótimo! O que foi que aconteceu?
Maristela: Ué, Mari! Você!
Você veio me ver!
Mariana: Eu viria de
qualquer jeito. Não precisava ter feito isso.
Maristela: Isso é uma
coisa que a gente não sabe, Mari! Talvez você tivesse vindo, talvez não. Mas
estou feliz que você está aqui.
Mariana: Eu volto
amanhã pra te levar no médico.
Maristela: Mas eu já estou
bem melhor. Acho que não precisa.
Mariana: Se cuida, meu
amor. Eu venho te pegar amanhã.
Maristela: Por favor,
volte.
Mariana: Sim.