domingo, 4 de agosto de 2013

VIDA NÚMERO 4: Maristela tem uma amiga



(Sentada no sofá de Maristela está Mariana. Ela olha um álbum muito grosso. Maristela entra.)

Maristela: Mari.
Mariana: Oi, amor.
Maristela: O que você tá fazendo com isso na mão?
Mariana: Eu achei.
Maristela: Onde? Você tirou de onde?
Mariana: Do seu esconderijo. Te conheço há muito tempo, Mari.
Maristela: Você não podia...
Mariana: Não vou sair daqui sem a gente conversar sobre isso.
Maristela: Não tenho nada a dizer. Se não me entendeu depois de ver isso, desista de mim.
Mariana: Nunca.
Maristela: Quer um café?
Mariana: Quero.
Maristela: Acho que preciso de um uísque.
Mariana: Toma só um café, Mari. Vamos conversar.
Maristela: Como você entrou?
Mariana: Peguei a chave com seu irmão. Ele me ligou.
Maristela: Aquele merda.
Mariana: Não fala assim.
Maristela: Faz três meses que ele não me liga.
Mariana: Ele estava doente.
Maristela preocupada: O que ele tinha?
Mariana: Depressão.
Maristela irritada: Então ele que vá tomar no cu!
Mariana: Mari, nunca te vi assim.
Maristela: Mudei.
Mariana: Tanto faz pra mim.
Maristela: Vou fazer o café.

(Maristela sai. Mariana continua folheando o álbum.  Maristela fala com ela do outro cômodo. Mariana começa a chorar vendo o álbum.)

Maristela: Mari, desculpe, viu? Estou feliz que você veio. No final das contas, eu só tenho você.
Mariana: Eu sempre estarei aqui.
Maristela: Você gosta de café bem forte ou pode ser chafé?
Mariana disfarça as lágrimas: Pode ser do jeito que você gosta, meu amor. Tanto faz.
Maristela: Açúcar ou adoçante?

(Silêncio. Mariana chora.)

Maristela: Açúcar ou adoçante, Mari?

(Silêncio. Mariana chora.)

Maristela: Vou levar os dois. Você dormiu aí?
Mariana recomposta: Quase.
Maristela ainda do outro cômodo: Mari, você tá lembrando que hoje faz 18 anos que nossas mães morreram? Aquelas vacas!
Mariana: Cala a boca, Maristela!
Maristela chega com o café: Vacas mesmo! Você está chorando.
Mariana: Já parei.
Maristela: O que aconteceu, Mari?
Mariana: O que aconteceu, Maristela? O que aconteceu? Você que saber...
Maristela: Você me chamou de Maristela duas vezes. Me chame de Mari.
Mariana: Mari 1.
Maristela ri: Sim, Mari 2?
Mariana ri: Como a gente era ridícula!
Maristela ri: Como a gente era feliz...
Mariana: Não odeie nossas mães. Elas estavam tentando de novo. Ser feliz, sabe?
Maristela: Não. Não sei mais...
Mariana: Como pudemos não perceber que elas estavam desesperadas? Mari, elas estavam bem aqui...Elas estavam aqui e nós as deixamos partir.
Maristela: Elas pularam, Mari. Elas que pularam e nos deixaram aqui. Com quantos anos? 12! 12 anos, Mari!
Mariana: Hoje eu entendo.
Maristela: Eu não. Elas tinham a gente. Não podiam...Eu entendo com a mãe dos outros, mas com a minha não dá...
Mariana: Você se incomoda mais com o namoro ou com elas...

(Mariana para de falar. Não consegue.)

Maristela: Com elas pularem? Fala, Mari! Por isso, que eu digo, aquelas vacas!
Mariana: Cala a boca!
Maristela: Cala a boca você! Fica aí chorando a morte de duas pessoas que nunca nos amaram. Elas pularam de um prédio e nós vimos! Nós duas! Você lembra quando nossos pais acharam as cartas? As duas estavam...E você fica aí achando que elas tinham razão! E vem aqui me dizer que eu estou errada por chamar as duas de vacas! Vacas! Vacas!
Mariana: Mari, você pode falar o que quiser. Eu não vou desistir de você. Eu vim aqui pra te ver.
Maristela: Minha mãe se jogou de um prédio. Ela fez um rabo de cavalo em mim, passou perfume na minha roupa, me deu um beijo e pulou. E a gente feliz por que sua mãe tinha vindo passar a tarde com a minha e a gente podia conversar sobre aquele menino. Quem era aquele menino que a gente gostava as duas? Eu não sei...Mas elas pularam na nossa frente. Eu nunca mais prendi o cabelo. Lembro daquele rabo de cavalo me puxando o cabelo, lembro dessa dor enquanto via minha mãe pular.
Mariana: Mari, elas estavam sozinhas.
Maristela: Nós estávamos lá.
Mariana: Nós não podemos curar toda a solidão das nossas mães. Nós não temos esse poder, Mari. Existe uma solidão de mãe que filho nenhum cura. Elas estavam tentando. Mas não conseguiram.
Maristela: Eu sei.
Mariana: Você está tentando também?
Maristela: Não sei.
Mariana: Está tentando ser feliz, Mari?
Maristela: Acho que sim, mas ainda não sei.
Mariana: Você é a mulher mais linda que já vi na vida.
Maristela: Isso é uma mentira.
Mariana: Não é. Você é linda. Sempre foi. Lembra daquele menino que você falou? Ele se chama Guilherme. Eu sei bem, por que era pra mim que ele não olhava. Aí fica mais difícil de esquecer. Você sempre foi a Mari 1  e eu a Mari 2. Você é linda. Mesmo agora que faz toda a força para não ser. Linda!
Maristela: E o que aconteceu comigo, Mari? Com toda essa beleza que você diz? Eu era engraçada e estava sempre cheia de gente perto de mim. E o que aconteceu comigo, Mari? Eu estou definhando nesse apartamento. Aqui não tem nada de lindo em mim. Eu não tenho pra onde ir e eu nem sei quando isso começou. Talvez naquele dia das nossas mães, talvez depois, com meu pai...Eu já nem sei, por que a vida tem sido isso pra mim: uma sequência de más notícias.
Mariana: Se eu te levar num médico, você vai?
Maristela: Vou.
Mariana: Vou procurar um amanhã. Hoje vou sair correndo daqui e resolver muitas coisas. Você sabe, né?
Maristela: Sei.
Mariana: Mas eu vou procurar um médico pra você. Vou te levar num médico e ele vai te dar remédios. Você vai ter que tomar.
Maristela: Ok.
Mariana: Levanta sua blusa.
Maristela: Não.
Mariana: Levanta, Mari. Eu quero ver. Não tenha medo. Eu não vou te repreender. Eu só quero ver se está infeccionando ou algo assim.

(Maristela levanta a blusa e sua barriga está cheia de cortes. Alguns cicatrizados e outros ainda vermelhos. Maristela chora ao mostrar para a amiga.)

Maristela: Desculpa, Mari.
Mariana: Não tem problema, meu amor. Por que você voltou a fazer isso?
Maristela: Nunca parei.
Mariana: E por que fotografar, Mari?
Maristela: Não sei...Me faz bem...

(Mariana folheia o álbum. Lá fotos de partes de Maristela cortadas e queimadas. Cada foto tem uma data e ao lado uma figura de algo que Maristela não tem. Ao lado da foto da barriga cortada, a foto de um bebê. A cada foto de corte da barriga, um bebê ao lado.)

Maristela: É que me deu vontade de ser mãe...
Mariana: Só está se cortando na barriga?
Maristela: Só. Eu juro!

(Mariana vê outras fotos, mais antigas. Maristela com pequenos cortes no pescoço, escondidos pelo cabelo sempre solto. Ao lado, fotos de mulheres com cabelo preso. Maristela com queimaduras  de cigarro na lombar e ao lado fotos de atrizes famosas fumando.)

Maristela como quem mostra um álbum de fotos de uma viagem: Essa aqui é de quando eu queria fazer um penteado bonito, mas não conseguia. Essa outra foi quando eu quis fumar, mas sei que faz mal. Não fumo, não! Nenhum trago! Essa outra é de quando eu estava namorando e não tinha onde me cortar. Eu cortava aqui, no meio dos dedos. Fiquei sem usar sandálias. Aí eu colei estas aqui. São lindas estas sandálias.

(Mariana olha pra ela, desolada.)

Maristela: Esse aqui é engraçado! Vi esse casal na rua! Eles estavam fazendo carinhos no metrô. Lindos! Lindos! Nunca ninguém me fez carinho no metrô...Bom, mas aí eu tirei essa foto deles e fiz várias versões no computador. Fiz uns cortinhos pequenos perto do coração. Aqui. Tá vendo?

(Maristela parece perder de vez a sanidade.)

Maristela rindo: Ah! Mari! É cada história que tem aqui! No fundo foi bom você ter achado esse álbum. Ele é lindo! Olha essa aqui! É de ontem. Usei um estilete bem fininho. Cortei um pedacinho bem pequeno da minha barriga. Sangrou muito. Aí eu passei a mão. Fiquei com as duas mãos cheias de sangue. Passei no rosto. Aí eu pus uma música e dancei pelada, cheia de sangue! (ri) Fiquei assim pela casa! Acredita? Aí eu achei essa foto desse nenê recém-nascido. Cheio de sangue também! Achei isso tão lindo, Mari! Tão lindo! Era eu renascendo! Nascendo cheia de sangue e dançando pelada! Como quando a gente nasce, sabe? E isso foi ontem! E adivinha o que aconteceu hoje? Adivinha! Uma coisa maravilhosa!

Mariana está chorando: Sério, Mari? Que ótimo! O que foi que aconteceu?
Maristela: Ué, Mari! Você! Você veio me ver!
Mariana: Eu viria de qualquer jeito. Não precisava ter feito isso.
Maristela: Isso é uma coisa que a gente não sabe, Mari! Talvez você tivesse vindo, talvez não. Mas estou feliz que você está aqui.
Mariana: Eu volto amanhã  pra te levar no médico.
Maristela: Mas eu já estou bem melhor. Acho que não precisa.
Mariana: Se cuida, meu amor. Eu venho te pegar amanhã.
Maristela: Por favor, volte.

Mariana: Sim.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

VIDA NÚMERO 2: Maristela, suas casas e seus cheiros.




Sabe uma coisa que eu não me conformo? A gente ser todo mundo igual. A gente ter dois olhos e um nariz e uma boca, enfim, ter essas coisas básicas da carcaça. Isso me leva a crer que, no fim, ninguém é nada mesmo. Não importa, sabe?  Eu acho que seria justíssimo algumas pessoas terem três olhos ou duas bocas. Acho que seria justíssimo mesmo.  Mas isso não importa também. 

Maristela criança tinha dessas coisas de pensar absurdos. A mãe e o pai nem ligavam, mas tinha um tio que ela só via no Natal, que achava a menina genial. Ele gritava, cuspindo no peru: “Vocês ouviram o que disse a menina? Ela é genial! Genial!” Mas o tal tio morreu. E nunca mais se falou em genialidade para Maristela. Todos a achavam comum.  Menos ela mesma, obviamente, que se achava um gênio incompreendido. Ah! Se algum dia me descobrem por aí! Olhava-se no espelho todos os dias longamente, desde criança. Maristela, menininha bonita, foi ficando linda. E de tanto ser linda, um dia ficou feia e não teve quem a fizesse voltar a ser linda de novo. Toda sua casa é um remendo. Maristela, sempre pobre, ganhando uma miséria, foi ganhando sofá da tia, geladeira da avó, armário velho do tio, sapato apertado da prima e foi construindo seu palácio. Maristela não tinha forças para mudar em nada sua casa. Não tinha criatividade nem dinheiro, de modo que toda possibilidade de renovação, logo vinha abaixo e Maristela acumulava nas costas mais uma frustração. Mas se for descoberta e virar cantora, aí mando decorar minha casa com decorador muito bom e vou me sentar numa sala com sofá novo e televisão enorme. Meu banheiro vai ter uma hidromassagem e meu closet... Mas por enquanto, eu me viro com isso aqui mesmo. Quando sua mãe morreu, ficou aquela casa cheia de cheiro de mãe sem mãe dentro. Ficaram as roupas da mãe, o sofá da mãe, os pratos da mãe também tinham cheiro de mãe! E Maristela entrou naquela casa e nunca conseguiu chorar. Olhava pra aquilo e queria botar fogo em tudo. Ficou olhando para tudo aquilo, com seu incêndio imaginário, queimando os móveis com a mãe junto. Precisava queimar a mãe junto. Minha mãe sempre soube me fazer bem e eu sempre achei que ela não tinha o menor direito de morrer.  Deixou ali um cheiro insuportável de mãe e morreu! Eu acho que isso é falta de amor. Se ela pudesse se ouvir, veria que estava começando ali a ficar completamente louca, insana por julgar a mãe que nada fez a não ser exercer o seu direito básico de morrer. Mas Maristela não ouvia nada. Só música. Trancava-se no quarto, desde muito nova, e ouvia música muito alta. Se estava triste, ouvia música triste para chorar e cortar os pulsos. Se estava feliz, ouvia a música mais alegre do mundo e ficava quicando pelo quarto como uma criança eufórica. Quando eu era feliz, eu era assim: tudo ou nada. Não conseguia ficar no meio do caminho, em cima do muro, mas agora é tudo igual, tudo a mesma coisa e tanto faz. Tanto faz. Já tive essa vontade louca de viver, mas passou. A não ser que eu vire artista, a não ser que meu sonho se realize. Maristela era de uma geração em que sonhos pareciam cair no colo dos escolhidos pelo destino. Ela estava onde deveria estar: sentada, à espera do sonho caído. Não caiu.  De tudo isso na minha casa, a coisa que mais gosto é de uma toalhinha vermelha. Está furada a toalhinha da minha avó. Ela tem cheiro de vovó, mas não é ruim como o cheiro da minha mãe. É bom. Minha avó morreu só quando tinha que morrer, bem velhinha e com os cabelos prateados. Não acho que minha avó teria morrido se pudesse evitar. Morreu porque não tinha jeito. Mas minha mãe não e nem meu pai. Meu pai morreu depois e me deixou sozinha com aquele moleque do meu irmão. Moleque. Com 13 anos, aquele moleque de espinha na cara. Eu não sabia o que fazer com aquilo. Amo tanto meu irmão! E tive que dar comida pra ele. Tive que aprender a fazer ovo e feijão. Odeio ovo e feijão. E meu irmão saía peidando pela casa um peido fedorento que misturava com o cheiro da mamãe que eu não queimei e misturava com o cheiro do meu pai que tinha um cheiro forte de desodorante do comercial que traz um monte de mulher mas nunca trouxe nenhuma. Eu deitava embaixo da cama com a toalhinha da minha vó cobrindo minha cabeça. Deitava e ficava ali por horas. Se era domingo, ela passava o dia inteiro ali com a toalhinha da vó na cabeça, se era dia útil, ela passava a madrugada toda. A casa era limpa e Maristela trabalhava. Não havia quem desconfiasse que ela tinha essas crises de gente louca. Ninguém poderia dizer que aquela menina que já tinha sido linda, estava morrendo. Maristela um dia vestiu uma camiseta branca onde estava escrito: “Socorro. Estou morrendo.”. Ela mesma havia escrito, com letra vermelha. O irmão olhou pra aquilo e riu até cair no chão. Ele não sabia que era sangue de Maristela e que ela havia começado a se cortar bem fininho com uma agulha enferrujada. É que teve um dia que veio uma colega vender creme hidratante pra mim. Ela trouxe um monte. Eu fui experimentando. Até que eu passei um no braço. Era uma sexta feira, fim de tarde, depois do trabalho. Senti aquele cheiro e meu corpo ficou gelado. Eu comprei o hidratante e passei o final de semana todo passando o creme no braço e cheirando. No primeiro dia, eu chorei. No segundo, sem ter mais como chorar, eu senti vontade de enfiar uma agulha no meu braço. Enfiei uma vez, duas e três, até que perdi a conta. Passei o creme e enfiei agulhas no meu braço até que o creme ficou rosado do meu sangue. Aí eu deitei, fechei os olhos e vi o bebê que eu fui embalado nos braços da minha mãe, vi a menina que era passando a mão pequena nos braços dela, vi minha mãe olhando para mim, sorrindo de leve, me amando suavemente, por pouco tempo, tão pouco. Vi minha mãe nua, saída do banho, toalha branca na cabeça passando pelo corpo o hidratante que eu agora estava usando. Maristela levantou-se num sobressalto, com os braços ensanguentados e o cheiro de sangue e erva doce. Era a mãe que voltava com seu cheiro de mãe. Maristela deixou-se dormir e chorar, mas pôs o despertador para as sete horas da manhã da segunda-feira. E quanto ele tocou, Maristela lavou seu corpo e foi trabalhar. Ninguém que cruzou com Maristela na rua naquele dia poderia imaginar que aquela moça quase bonita, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, quase uma moça bonita, mas nada demais, aquela moça comum, vestida como todas, aquela moça com óculos de sol, que aquela moça lá, estava desesperada.


(uma das vidas da peça "As 7 vidas de Maristela")

sábado, 27 de julho de 2013

Das coisas que me inspiram



Cheiros. Cores. Nomes.
Palavras. Sonhos. Outros.
Passado. Fotografias. Velhice.
Cão morto. Quintal velho. Revista amarelada.
Mãe jovem. Avô vivo. Olhos brilhantes. Vida.

Respiro.
Choro.
Permaneço atenta.
Atenção! A vida passa.

Clichês. Músicas. Cartas.
Amor. Nudez. Quadros.
Filmes. Novelas. Comerciais.

Não sei se sou artista.
Não sei fazer arte.
Eu passo.

Milagre. Muleta. Fralda.
Minha bisavó. Minha filha.
Minha avó. Meu pai.
Piscina. Clube. Colégio.

De tudo que sempre quis, sobrou-me um resquício de esperança.
Sou artista.

Dinheiro. Carro. Assepsia.
Unhas feitas. Depilação. Mulher.
Cozinha. Mulher. Cortes invisíveis.
Mulher. Cabelo. Louça. Solidão.
Solidão...

A força que precisei para ser artista não é suficiente para que eu prossiga.
Preciso mais. Muito mais. Continuo.

Eu não sei cantar.
Eu não sei dançar.
Eu não viro de cabeça para baixo.
Eu não tenho alongamento nas pernas.
Eu não vi um milhão de peças.
Eu não li os clássicos.
Eu não conheço aquele diretor.
Eu não li aquele autor.
Eu não reconheço esta citação.
Eu não sei rezar.
Eu não gosto de ciranda.
Eu não...

Mas existe um motivo qualquer.

Eu não sei qual é.
Eu não sei que palavra usar.
Eu não sei qual é a bibliografia adequada.

Mas existe um motivo qualquer.

A solidão é infinita.

Disfarço. Recomponho. Permaneço.
Refaço. Lavo. Recomeço.
Se paro, reviro em febres de arte.
Se faço, cansaço.

Recorto-me em mil faces. Não amo nenhuma delas.
Sigo artista.

Tudo parece bobo, por fim.

Lamentos. Dor.  Peso.
Insônia. Álcool. Medo.

Tudo parece bobo, por fim.

 Eu não sei ser artista...

Machuco. Presa. Gaiola.
Imagino. Solto. Voo.

Eu não sei ser artista em paz.







quinta-feira, 25 de julho de 2013

Saudade - a palavra mais bonita da nossa língua

É bom estar na cama. O ar é quente. O sono é quente. Pode, às vezes, ser quente e areado, mas é quente. Levanta. Precisa ir ao banheiro. Volta. A cama já é morna. Sede. Água. A cama ainda morna. O sono quente, na cama morna, esfria.
Ele chama para o café. É bom ter quem prepare o café. A caneca com borda quebrada. A preferida, mesmo que quebrada. O gole do café, a boca inteira no café, o nariz inteiro dentro da caneca. A fumaça nos olhos que olham aquele que preparou o café. Como é bom ter alguém que a ame e prepare o café.
Os olhos se fecham. O cheiro do café invade a memória dos olhos esfumaçados. Os olhos de dentro são sempre esfumaçados. Alguém que a ama costumava preparar o seu café. Eu me lembro, eu estava lá  e via com os olhos de fora, ela pensa/sente/sabe. Eu me lembro dos óculos. Eu lembro. Era quente. Era sol. Tinha a poeira das coisas antigas e limpas. As coisas antigas não ficam nunca limpas. Por isso antigas, por isso as amo. Os olhos de dentro choram. Ela esteve lá. E não está mais.
O outro que também a ama pergunta qualquer coisa. Não sei, responde. Seus olhos estão estranhos, ele diz. Ela responde que é só a fumaça do café.
É bom tomar café com quem se ama. É bom tomar café com quem se ama. Em silêncio. O amor respira mal nas palavras.
Está tarde, ele disse. Eu sei, ela respondeu. Já estou indo, ele. Eu também, ela.
Na porta, os que se amam. No carro, os que se amam. Na esquina, os que se amam. Na mesa, a caneca. 

Na caneca, esfria o resto de café que nunca será tomado.

Não há mais fumaça.


 Distante dali, alguém de óculos toma seu café. Sozinho. Antigo. Empoeirado. A sua caneca tem a borda quebrada.




(Esse é o começo de uma peça. Vou escrevê-la mais pra frente. Comecei depois que o Marcelo (Lazzaratto) me disse com muita, muita sinceridade: "você escreve bem, Lianinha!". Essa peça vai ser para ele. Esse texto já é para ele.)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Crianças beijadas pelo papa e a santidade do sorriso do pipoqueiro

Existe uma ligação secreta entre as coisas. É preciso estar atento para percebê-la. Existe uma ligação, que relativiza tudo, que ridiculariza tudo. Pode doer, pode deixar sem chão, mas sem fazer as devidas perguntas, nenhuma fé pode ser verdadeira.
                Eu tenho fé no sorriso do pipoqueiro que vendia pipocas na frente da igreja. Tenho fé no calor que sinto no coração quando me deparo com o carinho sincero de alguém. Eu ia à missa, mas minha devoção sempre foi ao pipoqueiro da praça. No seu carrinho simples, seu avental azul e seu tênis Conga no pé. O padre falava por 2 horas e eu não conseguia entender. Gostava de cantar, mas não podia cantar alto. Na casa de Deus, todos se comportam. Todos põem moedinhas e acendem velas (hoje eletrônicas, como num fliperama). Lembro-me tão bem de quando eu via fiéis repetindo roboticamente as palavras da oração e logo olhando pro lado, conferindo a roupa da outra ou o novo parceiro daquela divorciada. Ainda é assim. Não adianta fingir que não. O princípio de que “somos todos iguais perante Deus” não inclui os que são diferentes. Eis a maior contradição. Se eu sou gay, se eu gosto de saia curta, se eu talvez não acredite na estrutura tradicional da família, aí eu não sou igual. Antes, eu preciso me igualar, me pasteurizar para ser digna da igualdade divina. E eu, criança espertinha, pensando: “Por que não posso ir de saia na missa, se está calor e Deus me criou? Ele já viu minhas pernas. Ele conhece meu corpo. E ele sabe que sou calorenta.” Eu sempre me senti sozinha na igreja. Sempre me senti abandonada com minhas perguntas inaceitáveis.
                Fiz catecismo e resolvi dizer à senhora que dava as aulas que eu me achava inteligente. Ela me disse que ninguém poderia se achar inteligente, que alguém deveria me achar inteligente e não eu mesma. Que eu estava sendo arrogante e que isso não era um comportamento cristão humilde. Eu, até hoje, tenho dificuldade em dizer que sou inteligente. A vulnerabilidade da criança, entre Deus e o Diabo, entre santos sofredores, entre paraíso e inferno, pode ser fatal para a autoestima, para o autoconhecimento. Demorei tanto para perceber que aquela senhora tinha sido absolutamente diabólica comigo. Se existe um diabo, ele aponta dedo e acusa as pessoas; se existe um Deus, ele nos compreende e nos afaga.
                O papa está no Brasil. Eu gosto da figura desse papa. Por que ele tem um sorriso sincero. Pode ser que ele seja um canalha fingidor (eu nunca vou deixar de lado as perguntas, afinal, sou inteligente). Tenho calafrios quando vejo mães jogando suas crianças para o papa beijar. Que tipo de Deus quer que mães deixem seus filhos nesse frio, fora de casa, no meio de uma multidão para ser beijado por um homem que a criança não conhece? A criança não sabe de nada. Ela não tem a fé da digníssima mãe. Ela quer ficar quietinha, ela quer crescer e entender as coisas do mundo. Ela não sabe que Deus está naquele lugar e é representado pela figura solene do papa. Aliás, alguém sabe com certeza? Alguém pode dizer que descobriu a verdade do universo e que ela é a cristã? Não seria isso uma arrogância atroz? Por favor, deixem as crianças em paz. Joguem-se vocês, adultos de fé, no colo do papa, não usem os olhos puros de uma criança como uma arma para atrair o representante da igreja e as matérias do jornal. Isso não tem a ver com Deus (se é que ele existe). Isso é indústria cultural e o papa é popstar. Cuidado, atenção. Existem pipoqueiros de olhar bonito e eles merecem nossa atenção e nosso cuidado. Ensinem para seus filhos que o Papa e o Pipoqueiro são igualmente importantes e, por isso, não precisamos nos aglutinar, dar cotoveladas uns nos outros, para chegar perto do “homem de Deus”.
Se é que ele existe, claro.
Mas, se existe, ele não está num lugar onde a comida deve estar custando uma fortuna ou onde um quer pisar no outro para ter o melhor ângulo de visão. Nem onde se vendem camisetas com foto do papa, nem onde estão sendo distribuídos kits para a pasteurização dos desejos humanos, nem onde existem confessionários distribuídos como banheiros químicos em dia de grande show.
Está no sorriso do pipoqueiro de avental azul e conga azul marinho.

E é nessa igreja que eu batizo minha filha.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Memória/macias/história/magia

Hoje eu quero fazer uma aula bonita – disse a professora de expressão corporal. Nunca me esqueci disso. Ela mostrou seu planejamento. Rabiscado no topo da página, estava o escrito “aula bonita”. Como certas coisas mudam para sempre a direção da nossa arte, da nossa vida...Eu vi, naquele dia, naquele momento, a possibilidade de fazer as coisas para serem bonitas e só. Porque não é só. É muito.
Algumas coisas ficam na nossa memória. Como recortes breves de quem somos. Não separo essas lembranças daquilo que sou. Eu não lembro daquilo. Eu sou aquilo.
Certa vez choveu pingos de chuva muito grandes na janela. Eu lembro de olhar para aquelas gotas e me espantar. Como pode? Eram enormes. Lembro que era de madrugada. Tinha uma luz bem azul. Eu tinha areia nos olhos. Alguém ao meu lado não podia ser acordado. Talvez minha irmã. Aquela sensação de céu desabando, crescente na minha imaginação infantil, aquele barulho forte. Todos dormindo e eu acordada. Acho que eu estava com medo. Não sei...não guardei. Guardei a luz azul no enorme pingo d´água que caiu na janela.
Eu vivi 18 anos com meu avô. Ele era um sonho. Avô de histórias. Velhinho e doce. Eu quase não me lembro de momentos com ele. Eu me lembro de suas mãos. Eram finas como papel de seda. Tinha as unhas cortadas e gostava de dar uns tapinhas na nossa cabeça. Me chamava de pirulitinho. Lembro-me de quando eu percebi que ele era velhinho, por que vi o seu modo lento de descascar uma maçã. Eu nunca comia o suficiente. Ele sempre queria me dar uma maçã. E ele sempre me achou nova demais para mexer com faca. Com 15, 16 anos, meu avô ainda descascava a minha maçã. Não me esqueço dessa maçã. Ela é tudo: a lentidão, o carinho, o cuidado, as mãos, meu avô.
Lembro da minha filha nascendo e talvez essa seja a lembrança mais peculiar de todas! Eu não lembro do rosto dela de recém nascida. A imagem é sempre do rosto atual. Lembro da sensação. Ela saindo de mim. Eu, aos gritos, forte, corajosa, fazendo o que as mulheres fazem desde que o mundo é mundo. A voz rasgada, intensa, urros. Não aqueci a minha voz e não fiquei rouca. A minha voz era eu inteira. Eu tive a sensação de que gritava pelo ventre e não pela boca. E, de repente, o silêncio dos olhos da minha filha. Enormes! Silêncio. Como nunca havia existido antes. Não lembro se minha filha chorou. Silêncio. O espanto! Minha filha! O amor! A vida! A cada dia, ela renova isso em mim. Eu atualizo seu rosto, por que seu rosto, hoje, me traz o mesmo espanto, sempre.
Cada memória. Um pedaço de mim. Infinitos pedaços que não lembro, que não sei. Estão lá também.
Ser artista, mexer com essas coisas. Como dói!
Na superfície não chego a lugar algum. Preciso vasculhar cada detalhe. E não é com precisão. É caótico, barulhento, ruidoso.
E a dor de saber que há tanto em mim, mas muitas vezes, sou nada em cena. A tristeza do ator de compreender que existem as coisas belas, que são o espanto, o silêncio, mas isso tudo muitas vezes é confuso, não projeta, não expressa. A sensação terrível de talvez ser medíocre, gastar o palco a toa. Com tantas coisas em mim...
Profissão estranha. Por que mesmo que eu faço isso?Não respondo. Já está respondido. Faço e pronto. Porque eu quero fazer uma coisa bonita.

Numa manhã de domingo. Antes do almoço. Eu ouvi Elis. Eu não sei dizer o que foi. Eu passei a viver numa devoção por aquela voz, por aquela artista. Eu era tão jovem e demorei mais de dez anos pra assumir que eu também queria ser artista. Era alguma coisa...eu não sei bem...a voz era afinada, mas não era isso. Ritmo, tom, melodia, letra, mas ainda não era isso. Eu passei anos ouvindo Elis sem ver seu rosto. E, espanto!, quando vi, já o conhecia. Ouvir Elis e vê-la é a mesma coisa. Ela está inteira na sua voz. Sabe-se quando ri, quando chora, quando samba. Está tudo lá. 

Talvez ela pudesse cantar as mãos do meu avô. Mesmo que isso esteja em mim. 

Isso é arte, por fim? Cantar a memória dos outros? 


domingo, 21 de julho de 2013

Mulheres do Bairro

O espectro de Laura estava deitado no sofá. Laura tinha sido uma moça muito bonita. Não era mais. Não era mais nada. Ela estava muito cansada e deitou-se no sofá. Espectral, assistindo televisão, encheu a pança de batatas fritas. Bebeu duas taças de vinho doce. Ela estava virando uma linha fina de gente, um pontilhado sem ser contornado por nenhuma mão, nem mesmo inseguras mãos infantis. Pontilhado de si mesma, Laura resolveu ligar para sua avó. Ela tinha 90 anos, velha como toda avó deve ser. A avó atendeu ao telefone, preocupada, mas nem tanto. Sua neta não lhe dava permissão para morrer. 90 anos passaram voando, pensou, mas dos 90 para os 91, o tempo parou. Era assim todo ano: a vida passava rápido, enquanto os dias se arrastavam eternamente. A neta era mimada. Todos os dias ligava. A avó ficava sempre esperando para lhe dizer boa noite. Criancinha sem colo, chorava para sua avó. É triste precisar dos outros. Mesmo que os outros sejam seres amados e que nos amam. A neta estava chorando. Nada demais, pensou a avó. A neta perguntou uma coisa que nunca tinha perguntado e a avó percebeu que não era um dia como os outros. Era um dia especial. Dali, daquela Laura, espectro de moça que já foi bonita, daquele pontilhado medíocre deitado no sofá, ninguém poderia imaginar nenhuma atitude. Não parece ser essa a condutora de nada, nenhuma ação, nada, nem fala, nem nada. Um pontilhado...
Laura levantou-se.
Ela arrumou seu cabelo no espelho. Ficou pensando na resposta da avó. Prendeu num coque espevitado. Ficou bem bonitinha. Ai, como era tonta! Saiu. Bateu a porta. Sem trancar. Como é idiota essa menina! Ela andou. Contou oito casas, como num tabuleiro. Oito casas depois, tocou a campainha. Abriu uma moça mais besta ainda. Laura a beijou por três minutos. Ela havia posto um alarme. Ela a beijou e foi correspondida. Pobre Alice! Parecia que seria mais um dia, como os outros, dias idiotas, como os outros. Alice foi beijada por três minutos. Ela fechou a porta. Talvez tenha batido na cara da outra, não sabemos. Alice teve que levar as mãos à boca, mesmo sabendo que aquilo era extremamente clichê. Os espantos são absurdamente clichês. Que sonho! Um beijo clichê. Quem era aquela pessoa? Alice se viu no espelho, de repente, se viu como era: uma velha! Eu tenho 90 anos! Puta que o pariu! Ela chorou. Foi até o banheiro e checou seus seios. Inteiros, para cima. Seios bonitos, eu sei. Seios idiotas! Ela voltou a se vestir. Rapidamente estava vestida com um vestido que tinha sido muito caro. Caro demais para usar em casa! Mas que coisa! Pensou. Alice lembrou-se do beijo. E se convenceu de que estava com roupa de festa para ganhar beijo clichê. Que dia longo. Ainda faltava muito para as seis? Muito, muito. As seis chegaria o marido. O marido era esperado. O marido ia chegar as seis. Alice gostava de trabalhar em casa, mas tinha tantos vestidos! E alguns ainda com a etiqueta. Porra, eu tenho 90 anos! Alice abriu o armário e tirou uma caixinha de costura. Selecionou a agulha mais bonita e fez diversos furinhos no seu braço. Apertou. Ela sangrava só uma gotinha em cada furo. Precisavam ver que coisa linda! Parecia um desenho! As bolinhas vermelhas colorindo seu braço branco. Ela fez uma tatuagem no espelho com aquele sangue tão simetricamente distribuído. Ela sorriu, ela riu. Eu existo! Eu existo!
Eu existo? Pensou Maria.
Eu existo, eu existo. Por que a moça fica repetindo isso como uma besta? Embora impressionada por saber que tinha uma vizinha louca, Maria ficou bem empolgada com a ideia de vigiar a louca e depois contar na escola as coisas que iria descobrir. Amanhã mesmo já será um dia e tanto. Contar dos furos de agulha, da louca gritando que existe. Que coisa mais sensacional! Com certeza seria incrível ver a cara da Joana quando ela contasse essa história! Maria, puta menina tonta, comia os cantinhos do dedo quando ficava nervosa. Estava lá, comendo sua pelinha favorita: a do dedão esquerdo! Filé de si mesma, pelinha boa que só. Comeu tanto que sangrou. Ela deu de chupar o sangue. Ficou ali chupando o sangue! O pai deu um tapa na sua mão. Tira o dedo da boca, menina! Parece tonta! A mãe não gostou do tapa. Ele era um bom pai, mas perdia a cabeça com esse negócio de comer dedo. A mãe fazia igualzinho, comia o dedo. Mas o filé dela era o dedo médio direito, aquele dedo do foda-se.  Puta dedo gostoso! Ela comia, o marido odiava. Ela passou a mania pra filha. Mulher estúpida. Era uma anta! Ficava quieta. Sempre. Que anta! Como é desprezível o ser que só se importa em ser amado por todos, todo o tempo, sem risco de ser menos amado! Ela ficava quieta.
Ela tentou dizer. O marido não estava acostumado. O marido olhou para ela como quem vê um meteoro prestes a bater na terra. Mulherzinha filha da puta. Se eu tivesse um revólver embaixo da minha cama, eu te matava, ele pensou. Só pensou, o gentleman. Oh, senhor príncipe, bata-me na bunda! Pensou a mulher.
Maria num canto. O dedo sangrava. Maria ameaçou chupar o sangue, mas seu pai a olhou. Acho que meu pai não é tão bonzinho assim...
Eu te amo e não quero que você fique doida igual a sua mãe. Disse o pai.
A mulher tinha achado um fio de cabelo branco nos pelos pubianos. Naquele dia mesmo. Ela tinha 28 anos. Uma aberração da natureza. Um pelo pubiano branco aos 28 anos!
Não sabemos se foi isso ou se foi a história do pai que não queria que a filha comesse os dedos. Um passatempo tão inocente. Que ideia! Ficar aporrinhando a menina por causa de um pedaço da sua própria pele! A mulher foi até a cozinha e começou a quebrar todos os copos. Um por um, sem escândalo. Ela quebrou copos de requeijão, copos de geleia, copos de cristal, taças do casamento, canecas personalizadas, todos, todos os copos foram quebrados, menos a caneca de princesa da filha. Depois quebrou todos os pratos. Os fundos, os rasos, os de sobremesa, todos. Depois, com o chão coberto de cacos, começou a pisar, descalça, devagar, sob o olhar apavorado do marido. Ela andava e os cacos abriam seus pés. Faziam barulho. Cortes pequenos e outros nem tanto. Talvez essa mulher tenha morrido. Uma pena. Não teremos tempo de saber. Sangue por toda a cozinha. Você tem razão. Tomara que a menina não fique doida como a mãe.
Maria tinha saído pela porta da frente. Sem ninguém ver. Oito anos. Ela estava uma mocinha, diziam. Eu sou uma mocinha e não preciso mais da minha mãe! Assim que pensou, se arrependeu. Vai que Deus ouve! Que coisa isso de Deus ouvir tudo! Ai, que mundo idiota! Ela estava comendo todos os dedos em paz. Dedos sangrando, peles saindo, grudando na sua língua. Ela tirava e guardava no bolso. Que ideia! Poxa, ninguém ensina onde a gente deve guardar essas coisas. Não podemos jogar lixo no chão! E nem pisar na grama. Mas e os jogadores de futebol? Maria, não seja tonta! Parece que ainda tem cinco anos! Ela era uma mocinha e andava pela rua. Lá na varanda viu uma vovó. Aquele prédio era cheio de vovós! Todas sozinhas. Era um prédio rosa. Tinha um porteiro bigodudo e meio idiota. Ele achava que estava fazendo uma coisa muito importante! Maria riu dele. Até eu já sei não deixar as pessoas passarem! Que coisa feia rir dos outros! Só pode sem que eles ouçam ou sem que eles saibam. Não devemos menosprezar nenhuma profissão e nenhum homem! Todos são importantes! O pai dela sempre dizia. Ah, é? Então fica lá no lugar do bigodudo! Ou vai limpar cocô no banheiro da escola! Maria divertia-se com a conversa na cabeça e com as unhas comidas. Ah, a vovó! Quase que me esqueço dela! A vovó deu um tchau pra Maria. Como balançam esses braços pelancudos! Quando for velha não dou mais tchau. Maria deu um tchauzinho com uma mão, enquanto a outra continuava a servir de almoço. Aquela vovó fuma! Que coisa mais estranha. Não combina, não sei. Estranho.
Antonia fumava, sim. Algum problema? Velha de 90 anos não pode fumar? Ela ria, mostrando a dentadura. Não posso mais fuder, não posso comer que me dá caganeira, não posso beber que meu fígado tá fudido! Me deixa fumar, porra! Velha idiota! Ninguém deixava ou não deixava. Ninguém estava nem aí para o que ela fazia ou deixava de fazer. A empregada todos os dias passava café. Ela tomava café e fumava cigarro na varanda. Cada cigarro durava, em média, quatro minutos. Nesses quatro minutos, Antonia era nova. Ela estava na varanda fumando, esperando seu namorado chegar. Comia os dedos, de tanta ansiedade. Hábito de doida, já dizia seu pai. Graças a Deus ela o tinha perdido. Que homem bonito aquele! Ele não gostava que ela fumasse, mas suportava. As fumantes eram as únicas que faziam sexo oral. As fumantes eram incríveis na cama. Embora fedessem na boca. Sorte que meu pau não sente cheiro, pensava o outro, acenando para a fumante boqueteira dos anos 50. Mas ela tem 90 anos! Ela tem 90 anos! Ela acabou o cigarro. Que puta que o pariu que o cigarro passa rápido e a hora de dormir só vem daqui dois anos! Acendeu outro. Foda-se. Já estou no lucro. O celular tocou. A velha procurou. Não achou a tempo. Comeu um pouco o dedo médio da mão direita. Ah, que velha tonta! Ficar nervosa com o telefone! Quem você pensa que vai te ligar? Só pode ser ela.
-Vó?
Caixa postal.
-Velha tonta! Velha tonta! Marlon Brando? – estremece- Não aquele Marlon gordo velho ensebado, aquele outro.
Toca de novo. Ela escolheu a música do Fantasma da Ópera. Por que eu escolhi essa música? Que merda de música...
-Alô?
-Vó?
-Oi, linda! Diz. O que foi? – acende um cigarro.
-Eu acordei muito triste. Preciso de você.
-Venha me ver. Eu estou aqui.
-Não consigo. Eu tenho um monte de coisinhas pra resolver.
-Me diga.
-Isso não acaba nunca? Isso...
A avó apaga o cigarro na própria mão, varre as cinzas com os dedos. A menina saiu correndo. Um marido grita na casa ali do lado. Sua neta. Ela era tão pequena ontem mesmo. A mulher não sangra nos pés. Não podemos nos ater a esses detalhes de morrer ou não. Um sangue escorre. O espelho se quebrou. O vestido era tão bonito. Foi um beijo tão bom que só poderia ser o primeiro ou o último. Não havia sido o primeiro. A menina quis um balão, mas não pode comprar. Entendeu que ainda precisava do pai e da mãe. Sentou na sarjeta. Comeu todos os dedos novamente. Todos em carne viva. Ela pode voltar para casa. Sua mãe preparava um leite quente na caneca de princesa. O pai lia o jornal. A menina deu um tchau para sua mãe. Minha mãe está pálida. Mamãe, você machucou seus braços? Mamãe? Não foi nada, meu amor...a mamãe está um pouquinho doente. Nós temos uma vizinha louca. Eu existo! Um pedacinho tão pequeno de espelho. Um pedacinho minúsculo onde cabia apenas a boca do último beijo. Eu estou cansada. Vó? Vó?

-Não. Não acaba nunca, meu amor.